sexta-feira, 12 de setembro de 2008

AQUELA NOITE DE INVERNO EM EDIMBURGO

Nunca vou me esquecer do dia em que recebi Eduard Frank Albiern na porta de minha casa. O vento cortante da noite aliava-se ao negro de um céu sem estrelas, cuja lua encoberta por uma espessa névoa recusava-se a iluminar nossas faces. Ali postado na porta de casa, enquanto os olhares de dentro fitavam-no com um certo temor e curiosidade, vislumbrei a imagem de um homem que carregava uma pequena bolsa de couro nas costas. O semblante cansado e sujo mal podia ser distinguido devido à grossa barba que lhe encobria parcialmente o rosto; mas os olhos escuros revelavam cansaço e tristeza na expressão riscada da pele, que carregaria as marcas de sua vida para o resto de seus dias. Trajando um casaco preto sujo de terra, e uma calça marrom rasgada no joelho esquerdo, era impossível não sentir o odor do andarilho que há dias não tomava banho. Meu pai, um homem alto e discreto de feições sérias, que vestia uma calça de linho combinado com um colete preto, que se ajustava ao seu corpo deixando-o extremamente elegante, abservava à porta; então quebrou o silêncio diante da assustadora visão me tranquilizando:
- Tudo bem Erik!, esse homem é meu convidado...tudo bem filho!,...deixe-o entrar... -voltou a colocar o cigarro na boca.
Assenti com a cabeça e dei passagem para o homem que adentrou em casa, provocando com as botas um ruído no piso de madeira. O silêncio pairou sobre o ambiente e foi cortado pelas palavras de boas vindas de meu pai. Virei-me para trás e pude contemplar a expressão de espanto que se estampava na face de minha mãe, cujos olhares severos e recriminadores já recaíam sobre a atitude de meu pai, que conduzia o misterioso personagem pelo corredor até o quarto de banhos, entregando-lhe uma toalha e algumas peças de roupas à porta do aposento.
Vinte minutos depois estávamos todos a mesa de jantar. Uma mesa retangular dominava o centro da sala, meu pai levantou-se para remexer a lareira atiçando o fogo e colocando mais alguns tocos de madeira. Meu irmão permanecia imóvel com o olhar cabisbaixo, motivado pela sua infantil curiosidade atrevia-se a fitar Eduard Frank nos olhos por breves instantes, para logo em seguida retorná-los para o seu prato. Sentado bem a minha frente observava o homem que adentrara a minha casa, agora vestindo um casaco azul escuro sob uma camisa branca, além de uma calça preta amarrada a cintura com um cordão, e com o rosto barbeado; adquirira um aspecto agradável. Minha mãe colocou um cesto com diversos tipos de pães no centro da mesa, coberta com uma toalha manchada de vinho e de café, enquanto meu pai de volta a seu lugar, virava um garrafão de rum sobre o copo do andarilho enchendo-o quase até a boca, e depois, servindo-se igualmente disse:
- Beba isso meu amigo, neste frio aqui desta terra, rum é uma das poucas coisas ainda capaz de nos aquecer – o homem estendeu a mão e puxou o copo para perto de si bebendo quase todo o rum em apenas dois goles.

Naquela noite o vento gélido teimava em atravessar as pequenas frestas das janelas e portas e tocar-nos as faces, teimava em ameaçar as chamas amareladas das velas, que projetavam nas paredes sombras dançarinas a nos ameaçar com o prenúncio de uma possível e iminente escuridão. Sentado ao lado de meu irmão, observava o movimento das luzes quase se apagando, ou retornando mais intensas e iluminando misteriosamente a face de Eduard Frank Albiern. Tive a impressão de que por alguns segundos, era observado pelos olhos daquele homem enquanto as sombras cobriam-lhe o rosto. De repente parou sua refeição, seus olhos percorreram as paredes onde estavam dois quadros que foram adquiridos a pedido de minha mãe, entusiasta admiradora da arte, e detiveram-se num sabre prateado que pertencia a meu pai; tal objeto que agora destinava-se a decorar as paredes juntamente com os quadros, o acompanhara em seu trabalho durante onze anos em que servira com soldado da guarda na cidade de Edimburgo, antes de tornar-se agricultor. Quando minha mãe trouxe uma grande panela de sopa a mesa, o cheiro dos temperos invadiu o ambiente, e depois de nos servir, finalmente escutamos meu pai relatar que conhecera Eduard Frank Albiern há doze anos, e que durante quatro anos haviam defendido juntos as fronteiras da cidade de Edimburgo, dos levantes populares como soldados da guarda; depois disso Eduard fora transferido junto com um grupo de soldados, para salvaguardar o porto de outra cidade sob ataque de piratas, e assim nunca mais haviam se encontrado, até o dia em que caminhando pelo centro de Edimburgo, ao passar por trás de uma catedral meu pai ouvira uma voz chamando por seu nome nos fundos da igreja. Ao se aproximar reconheceu imediatamente o amigo e soldado, apesar do aspecto abandonado e assustador que o acompanhava pelas ruas da cidade. Comovido pelo estado do amigo, recomendou-lhe que fosse para sua casa dando-lhe toda a informação acerca do endereço de sua propriedade, e assim Eduard Frank Akbiern viera bater em nossa porta naquela noite.
Ouvíamos o ruído do vento açoitando as árvores, quando uma fina chuva começou a cair sobre nossa casa. Ainda na mesa de jantar saboreávamos um chá, enquanto meu pai e seu convidado haviam retornado aos copos de rum. Minha mãe havia se retirado para ler um livro na outra sala, enquanto eu juntamente com meu irmão, permanecia absorvido pela história dos dois soldados guardiões da cidade de Edimburgo, sedentos por desvendar outras aventuras do passado da vida de meu pai. Foi quando tomei a ousadia de indagar ao nosso convidado acerca de seu paradeiro, que o levara ao lastimável estado em que fora encontrado por meu pai, fazendo-lhe a seguinte pergunta:
- Sr. Eduard, porque o Sr. tornou-se um andarilho? – minha pergunta lançou sobre mim um olhar severo de meu pai, que foi interrompido pelas próprias palavras de Eduard Frank que gesticulando:
- Calma Marcus,...não recrimine o garoto...permita-me contar-lhe o motivo.
Meu pai descansou novamente na cadeira, bebendo mais um pouco do rum, e permaneceu em silêncio ouvindo as primeiras palavras daquele homem que nos relatou suas desventuras da seguinte forma:
- Depois de patrulhar o porto de Aberdeen por quatro anos, tornei-me um promissor homem de negócios na cidade, servindo a diversos homens de proeminência social no treinamento de suas guardas pessoais na arte do sabre. Consegui estabelecer-me num velho depósito, que o transformei num elegante local para aonde acorreram em pouco tempo muitos admiradores da esgrima. E assim conheci Claude Vincent Asper, jovem dotado de brilhante talento no manejo do sabre que alcançou rapidamente notoriedade no meio. Em pouco tempo consagrou-se como vencedor da maioria dos duelos travados, cujo reconhecimento de seu nome trouxe-lhe ascensão social juntamente com declínio moral...- interrompeu sua fala enquanto permanecíamos calados esperando pela continuação, bebeu mais um pouco do rum e novamente acalmou meu pai que o desobrigava de contar-me qualquer coisa, então Eduard Frank Albiern olhou-me fixamente e prosseguiu:
- Digo isto garoto porque quando as armas de um homem o levam a romper o limite da honra e da dignidade humana, então é sinal de que ele já não deve mais portá-las, e foi isso que ocorreu com Claude Vincent quando decidiu duelar com um amigo pessoal de minha estima chamado Orlando Prisquik; o motivo de suas desavenças com meu amigo foi o insulto proferido contra a noiva dele, a bela Emma, não vou proferir as palavras por uma questão de decoro, mas basta dizer que qualquer homem tomaria o que Claude Vincent disse naquele dia a Orlando Prisquik como um grave insulto contra sua mulher. No ímpeto de suas agressões, naquela mesma data marcaram a data do duelo para dali a cinco dias no campo de Pelak, uma planície ao norte de Edimburgo. Nos dias seguintes tentei de todas as formas dissuadir ambas as partes a desistirem do duelo, procurando outra saída para se escusarem do desentendimento, mas minhas tentativas foram em vão. Estava desesperado por saber antecipadamente que o desfecho do duelo vitimaria Orlando Prisquik deixando Emma inconsolável, diante da perspicácia e da rapidez imbatível de Claude Vincent no sabre. No dia do combate implorei a Claude Vincent que refletisse acerca de sua superioridade diante do seu rival, rogando-lhe que considerasse outra forma de duelo. Mas recebi o desdém de um ex-aprendiz que demonstrando a maior frieza montou no seu cavalo, e dirigiu-se ao campo de Pelak decidindo o duelo em menos de um minuto, com um único golpe que atravessou o pulmão de meu amigo.
Parados sobre a mesa permanecíamos com os olhos congelados nas palavras de Eduard Frank Albiern, que prosseguiu com a história.
- Quando cheguei ao campo de Pelak encontrei o corpo de meu amigo Orlando inerte no colo de Emma que chorava intensamente. E conversando com o juiz do duelo, um velho magro com um traje impecável e uma cartola elegante que nos observava, tomei conhecimento de que Claude Vincent já havia vitimado mais três homens, em covardes duelos que jamais deveriam ter acontecido devido à superioridade do meu ex-aprendiz na espada. Voltei para Edimburgo, fechei meu local de trabalho no dia seguinte e jurei que nunca mais ensinaria ninguém na arte da esgrima. Vendi os bens que possuía, reuni as poucas economias que guardei e as entreguei a Emma e as demais famílias desamparadas, cujos maridos haviam sido mortos pela lâmina do temido espadachim. Passaram-se algumas semanas e diante da escassez de recursos não pude permanecer na estalagem que me abrigava há três anos. Foi quando fui parar nas vielas de Edimburgo até encontrar seu pai.
O visitante inclinou-se em minha direção, e com a mão gesticulando no ar falou-me atentamente:
- Escute garoto!...lamento profundamente o dia em que decidi ensinar a arte da esgrima para estes homens, hoje convivo com o remorso de ter armado e ensinado homens como Claude Vincent a matar com a arte que aprenderam de mim, convivo com os fantasmas das vítimas de meu ex-aprendiz a me atormentarem de noite em meus sonhos,... posso não ter desferido o golpe garoto, mas também sou culpado destas tragédias...portanto!,...cuidado com o conhecimento que delega a outras pessoas...
Os braços de Eduard Frank puxaram a bolsa de couro para o seu coloazia, e sua mão esquerda reitrou do interior uma carta que colocou a minha frente. Meu pai levantou-se de sua cadeira, sentou ao meu lado, e juntos lemos as seguintes palavras numa bela caligrafia desenhada:
“Prezado Sr. Claude Vincent,...é sabido que o Sr. Eduard Frank Albiern, amigo pessoal de meu sincero respeito e admiração, tem tentado há alguns dias impedir este duelo, e considerando o fato de que todas as suas tentativas se revelaram infrutíferas, restando apenas um dia para o acontecimento, venho recorrer ao passado para tentar dissuadi-lo de tal feito, invocando para isso suas memórias da época dos duelos no estabelecimento de meu citado amigo; fazendo-lhe a revelação de que a minha morte seguramente resultará na tua, porque sou o único que detém o segredo para a cura de uma doença que o esta consumindo neste exato momento. O meu pai, alquimista reconhecido na cidade e médico pessoal de vossa família, revelou-me pessoalmente o mal que o alfige, por ocasião de um de nossos encontros que reunia um grupo de esgrimistas, e que se deu as vésperas de nosso duelo, entregando-me o medicamento que segundo suas próprias palavras lhe extirparia tal doença, na certeza de que tal revelação pudesse impedir este combate. Mas decidi adotar uma postura diferente reservando ao destino a sorte de minha vida, assim, se o duelo se realizar e se a minha morte sobrevier, o que certamente ocorrerá devido a sua superior habilidade que inevitavelmente sou obrigado a reconhecer, então você também morrerá, pois o secreto medicamento encontra-se nas mãos de um amigo de confiança que também detém uma cópia desta carta que esta lendo nesse momento, o qual lhe asseguro que jamais descobrirá, a despeito de todos os esforços que possa empreender para obter tal intento. Porém se demonstrar compaixão e desistir do duelo, então receberá na data marcada para o nosso enfrentamento, o medicamento que me foi confiado por meu pai para a cura de sua enfermidade. Decidi apostar em tua própria decisão Sr. Claude Vincent, assim se o pior me acontecer, tornar-se-á no teu próprio carrasco. Tomei a liberdade de enviar esta carta no dia do nosso duelo, portanto acredito que estará recebendo-a em dois dias, se tomou a decisão prudente desconsidere estas palavras e sigamos cada um com nossas vidas, mas se foi irredutível nos teus atos, desejo que estas palavras o incomodem até o teu último sopro de vida que certamente não tardará a chegar ,...Com respeito...Orlando Prisquik.”
Levantei os olhos em direção a Eduard Frank Albiern, e observei ele remexer a bolsa de couro novamente, retirando um pequeno frasco de vidro tampado com um rolha e contendo um líquido azul claro. Meu pai permanecia calado deixando escapar aquele sorriso discreto, de um ouvinte que certamente já tinha conhecimento do desfecho de tal narrativa, apenas aguardando para constatar minha reação. As palavras de Eduard Frank Albiern apenas confirmaram o que minha intuição já me dizia:
- Este é o remédio que Orlando Prisquik me entregou junto com a carta que você leu Erik. - disse-me Eduard Frank Albiern, colocando o frasco sob a mesa próximo a mim.
- Inacreditável....quer dizer que Claude Vincent está com os dias contados?...patife!...- não consegui esconder um ar de satisfação enquanto analisava nas mãos o pequeno vidro que continha o milagroso líquido.
- Isso mesmo garoto,...ironicamente meu estado de miséria veio auxiliar-me neste momento da vida, porque inúmeras vezes cruzei com Claude Vincent pelas ruas de Edimburgo, mas ele não me reconheceu devido a meu aspecto, certa vez chegou a me empurrar e agredir tratando-me como um verme insignificante. Nos dias que se seguiram pude observar que caminhava apressadamente e com o semblante preocupado, levava nas mãos um pedaço de papel parecido com este que vocês acabaram de ler.
Não havia palavras a dizer, pensando em toda a história que acabara de ouvir, era difícil acreditar que por trás de um maltrapilho que batera a minha porta, escondia-se um brilhante esgrimista consumido pelo arrependimento, mas que colocaria um fim as crueldades de Claude Vincent. Permaneci em silêncio, e ao me virar para o lado notei que meu irmão mais novo já havia sido retirado da mesa por minha mãe, certamente diante do teor da narrativa de Eduard Frank Albiern. Olhei para a parede a minha esquerda e pela primeira vez observei aquela arma demoradamente, o sabre prateado com detalhes entalhados reluzia com a luz de velas, o brilho corria sob a lâmina desfazendo-se, e subitamente reaparecia, com se clamasse para que a enxergasse além de um mero instrumento sem uso, que com o passar do tempo, havia se transformado num objeto de decoração na parede de tijolos daquela casa. Imaginei que histórias ocultariam uma arma, imaginei onde estaria Claude Vincent naquele momento.

9 comentários:

Crisfonseca disse...

Oi meu amor,
belíssimo conto, encantou-me tanto a escrita quanto o contexto.
Meu amor, tua escrita é sublime.
Beijos de carinhos,
Cris

Crisfonseca disse...

Meu amor,
voltei a ler teu texto, mais uma vez encantada me encotro.
Tua escrita é clássica, poética em suas descrições.
A tragedia tomam rumos muito elegantes e intleigentes em tua escrita.
Belo conto meu amor

Cristiana Fonseca disse...

Meu amor, voltei a ler teu texto, mais uma vez, mas não me canso nunca, tua escrita é sublime.
Desta vez me retive somente nas descrições formidáveis que vc fez do ambiente, das feições, dos cheiros, enfim fiz uma viagem dentro de teu conto. E para minha imaginação esta viagem entre as linhas é um presente.
Beijos meu amor.

Carlos Alberto disse...

Cris prazer em conhece-lo,

conheci-te ou melhor encontrei-te pelo blog da Cris, e não resisti em visitá-lo.
Cristiana foi uma de minhas mais brilhantes alunas, fui professor da Cris na universidade por 2 anos, trabalhávamos com questões teóricas acerca de filosofia.
Instiga-me a curiosidade o fato de que a cara metade de Cris é também Cris, além da semelhança dos nomes encontrei desenhos e escritas em comum. Vejo nas declarações de ambos o verdadeiro amor. Algo único e até raro nos dias atuais.
Cris, provavlemnte se chama Cristiano também (risos), minhas sinceras congratulações pela bela escrita que nos apresenta, és um escritor de qualidades notáveis.
Este conto é merecido de um belo fim de tarde e uma deliciosa xícara de chá.
Estou muito feliz em ver que a minha querida, sensível e talentosa aluna( ainda a tenho assim) esta em excelentes mãos.
Abraços desse velho e falante professor da Cris.
Albertliveira@gmail.com

Emerson Monteiro disse...

Ufa! Enfim alguém que escreve longos textos em "blog". Pelo pouco desenvolvimento no ramo cheguei a pensar que isso não existisse nesse mundo internético. E que os meus fossem desobedientes...
www.emersonmonteiro.blogspot.com

Selena Sartorelo disse...

Tua narrativa é delicada tanto quanto os detalhes que nela se apresenta..Teus objetos tem vida e tua hitória tem cheiro de neve suja de barro. Onde as rodas das carruagens que passam apressadas por ruas largas e movimentadas.

Parabéns á esses dois seres que completam em desenho e escrita a arte de fazer sentir.

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Realmente, após o irretocável desenho da Cris, só me restava ler o texto com esse tom de mistério e jogos de luz e sombra. Parabéns!!!

Selena Sartorelo disse...

Esperamos ansiosos outro conto...só para vc saber nossa angústia (rsrsr) e quem sabe mais uma linda parceria entre CRIS"ses".
Mas vim aqui hoje para agradecer tuas gentis palavras..e espero sem falsa modéstia um dia fazer jus a elas.

Obrigada
abraços,

Cristiana Fonseca disse...

Olá meu amor.
Amor pegue o Premio Dardos pra vc, ganhei da Renata do blog Próprio Veneno e lhe dou , pois o teu blog merece.
Beijosss meu amor.
Cris