domingo, 15 de junho de 2008

O BECO DE STA. ALBA

De pé com os braços cruzados e trajando o mesmo uniforme escolar, Elias Clader, Felipe Tornadori, e Ricardo Manintim, o garoto mais temido do ginásio também conhecido como Ricardo "boxeador", apelido que lhe conferia uma certa imunidade em todo o Colégio, observavam-me na entrada do beco de Sta. Alba. Em seu pequeno mundo circunscrito ao espaço do maior colégio da cidade, aonde subjugava todos os demais garotos pela força e tornava-se certamente na amizade mais desejada, Ricardo tinha seus domínios ameaçados apenas pela figura dos professores e do Diretor Ernesto Laurentim Lofer apelidado de "general".
Lançando um olhar para trás quando já caminhava pelo sombrio beco iluminado apenas pelo brilho das estrelas, pude vislumbrar o vulto cada vez mais distante dos três garotos imóveis e atentos, que pareciam ansiar por um desfecho inesperado para deleitarem-se as custas de meu fracasso. Lembro-me que tinha 15 anos quando decidi entrar no beco de Sta. Alba para cumprir o desafio que me fora imposto pelo grupo de Ricardo "boxeador", ou melhor pelo próprio Ricardo, afinal este era o preço determinado para que qualquer garoto da cidade quisesse conhecer Ingrid, sua irmã, e a garota mais bonita do Colégio. Como ninguém questionava suas decisões, Ricardo adotara uma tática bem diferente do simples uso da força física para intimidar os pretendentes, colocando-os frente a frente com o lugar mais assustador da cidade e deliciando-se com seus temores: o beco de Sta Alba.
As histórias contadas pelas pessoas sobre a misteriosa moradora nunca vista por ninguém ao longo de anos, que habitava um pequeno quarto no final do beco deram uma notoriedade sombria ao pequeno e estreito corredor de aproximadamente 30 metros que dividia dois prédios antigos não muito altos. Nas paredes sem janelas, manchadas e desbotadas pelo tempo, os fios de varal cruzavam-se desordenadamente inúmeras vezes, unindo ambos os lados e revelando apenas algumas peças de roupas, toalhas, e lençóis pertencentes a mulher. Como uma rua indesejada por todos os moradores, cujo final revelava uma porta de madeira com uma pequena placa com a enigmática inicial "L.L.D.", até mesmo durante o dia a passagem permanecia vazia, servindo apenas de abrigo para três gatos que escondiam-se nos jornais e caixotes abandonados espalhados ao longo do corredor.
Naquela noite fria enquanto me aproximava da porta, desviando-me dos tecidos que balançavam freneticamente no varal agitados pelo forte vento, observando as sombras delineadas que como espectros adquiriam vida em súbitos movimentos nas paredes, para desaparecerem logo em seguida e reaparecerem sob outros desenhos disformes, notei que era acompanhado por um dos gatos que habitavam o beco. A poucos passos da porta e tão perto do objetivo imposto por Ricardo de desvendar o significado das iniciais "L.L.D." inscritas na placa, virei-me para trás e constatei que os três garotos, agora apenas uma pequena silhueta distante que fundia-se com a escuridão, ainda continuavam a observar-me sem expressar qualquer gesto, inertes e ansiosos pelo que eu faria. Quanto a isso nunca tive dúvidas; desde o momento em que aceitara o desafio eu já sabia que não haveriam planos ou táticas para desvendar o mistério, a não ser utilizando-me do único método viável de bater na porta da moradora e perguntar-lhe pessoalmente sobre as letras. Ali postado na porta, depois de percorrer todo o beco de Sta. Alba já não havia como desfazer o meu ato, os passos denunciavam alguém que aproximava-se rapidamente da porta pelo lado de dentro respondendo as minhas batidas, parecia correr. Finalmente a porta se abriu vagarosamente.
O rangido preguiçoso das dobradiças revelou-me a mão delicada de uma mulher, que puxou a porta desvendando aos meus olhos um corredor com lindos tapetes coloridos decorados; bem ao fundo pude identificar um conjunto de mesas e cadeiras bem antigas, ricas em detalhes entalhados na madeira ocre que brilhava com a iluminação suave de um grande lustre de cristal, cuja porta de entrada do recinto me permitia ver somente a ponta, dando um aspecto de beleza incomum no que me pareceu ser uma sala de visitas.
- Não gostaria de entrar?
Meus olhos acompanharam aquela voz jovem e tranquila de uma mulher de aparentemente 30 anos que se apresentou a minha frente, muito bem vestida, estendeu sua mão em minha direção dizendo:
- Muito prazer,...eu sou Liz.
Por alguns segundos permaneci mudo diante da imagem daquela linda mulher educada, até o gato que me acompanhava ficou paralisado quando o brilho do interior da casa escapou para o beco iluminando parte da parede suja deixando meus desafiadores distantes completamente atônitos bem na entrada da viela.
- Sim, obrigado,... meu nome é Hugo Hertiz - estendi a mão e cumprimentei aquela mulher de gestos graciosos que me absorvia toda a atenção, longos cabelos castanhos cacheados escorriam-lhe pela face destacando ainda mais seus olhos verdes, um sorriso discreto realçava as maçãs avermelhadas de seu rosto pela brisa gelada da noite que invadia aquela casa.
Arrumei o pequeno gorro preto na cabeça, virei-me para trás, e agora sentindo-me vitorioso diante do desafio que me fora imposto, despedi-me dos garotos parados na entrada do beco com um ligeiro aceno de mão, aproveitando-me do meu momento de superioridade e entrando na misteriosa casa. A porta fechou discretamente e a escuridão dominou novamente todo o beco.
Em poucos passos atravessei o corredor acompanhado por Liz, e pude observar que as paredes estavam decoradas com quadros retratando paisagens e pessoas, alguns pareciam tratar-se de retratos de família. Finalmente vislumbrei por completo a sala que da porta revelava-me apenas parte da mesa e do lustre de cristal. Olhando para cima parado na porta de entrada da sala, parecia ver uma fusão de tons amarelados refletidos nos inúmeros cristais que compunham o grande lustre que dominava o centro do teto daquele ambiente; a minha frente a mesa retangular e as cadeiras delicadamente entalhadas num trabalho manual admirável conferiam um tom nostálgico mas elegante aquela casa; ao fundo da mesa dois sofás e uma pequena mesinha de vidro preenchiam harmonicamente o restante do espaço da sala. Minha anfitriã apontou-me um dos sofás convidando-me a me sentar.
- Que prazer recebê-lo Hugo,... saiba que espero por uma visita há vinte e oito anos,... e finalmente recebo-o em minha casa.
Sua primeira observação me deixou confuso, então sentindo-me mais a vontade perguntei:
- Vinte e oito anos?... o que quer dizer Liz?- Já estava cansada de chegar a porta e abri-la para deparar-me sempre com o beco vazio,... ou quando muito, com pessoas correndo ao longe desesperadas,... mal ouvindo meus gritos para não correrem.
- Como?... nunca ninguém te visitou Liz?
- Não,... ou melhor,... tentaram em todos estes anos,... mas fugiram antes que eu chegasse a porta para avisá-los e me desculpasse em nome do mordomo da casa.
- Avisá-los do que? - comecei a sentir um certo receio de ter entrado de imediato na casa de Liz, a conversa entre nós estava começando a ficar assustadora, mas não o bastante para deter a minha curiosidade.
- Avisá-los para não temerem o mordomo, apesar da sua aparência eu lhe garanto que Livingtom é o melhor trabalhador que tenho aqui, talvez não seja muito bom no trato com as pessoas, embora tenha me jurado que seu tratamento extremamente cordial nunca foi o bastante para detê-las à porta por poucos segundos que fossem. Sei que parece estranho mas durante todos estes anos Livingtom sempre se antecipou a mim,... acredite Hugo! ele é muito rápido, e assim ele sempre abriu a porta mesmo quando eu tentava impedi-lo, pois quando eu olhava para a porta la estava ele educadamente postado para recepcionar meus visitantes.
- Até hoje?... o que ocorreu então Liz?...o que fez com que você atendesse a porta?
- Eu não sei meu querido,... eu apenas ouvi suas batidas na porta já conformada de que Livingtom estaria lá para abri-la, então eu nem me apressei,... mas imagine minha surpresa quando cheguei ao corredor e vi que ele não estava a porta!... aí então corri enquanto você batia e finalmente consegui abri-la.
- E onde ele está agora?
- Está trancado no seu quarto - o semblante de Liz foi tomado de uma preocupação que em poucos minutos deu lugar a um choro, lágrimas começavam a escorrer-lhe pela face; estendeu a mão e apanhou o lenço de seda que eu lhe ofereci - temo que algo muito ruim tenha acontecido a Livingtom,... imagine Hugo!... pela primeira vez em vinte e oito anos ele não atendeu a porta,... algo do qual ele não abriria a mão por nada neste mundo!... quantas vezes eu briguei com ele, quantas vezes eu lhe proibi de abrir a porta, até coisas piores me passaram pela mente para impedi-lo!
Comecei a pensar na figura deste misterioso mordomo formando a imagem em meu inconsciente de uma pessoa vitimada talvez por alguma deformidade física, algo que o tornara assustador para os visitantes que haviam batido na porta, o que só aumentava o mistério e meu medo acerca do desconhecido Livingtom.
- Mas porque corriam dele Liz?... pelo que você me contou até agora imagino que este pobre homem deve ser muito assustador...
- Desculpe Hugo, mas eu não vou responder mais nada,... eu ainda não o vi hoje,... então porque não me acompanha até o quarto dele e descobrimos juntos o que ocorreu?... acho que não tenho coragem de ir lá sozinha,... mas não quero obrigá-lo a prosseguir e respeitarei sua decisão se quiser partir... - novamente irrompeu em choros preparando-se para levantar da cadeira.
Por alguns segundos eu fiquei completamente perdido na minha decisão, lembrei-me de minha mãe e suas broncas me alertando acerca do envolvimento com estranhos, imaginei ela naquele exato momento com o olhar severo me recriminando por ter apenas entrado na casa de Liz, e certamente me aplicando uma surra quando chegasse em casa devido ao meu atrevimento. Mas ela não estava lá naquele momento, e minha comoção pela mulher que transmitia uma certa franqueza em sua voz, me convenceram a subir para o quarto do mordomo.
Acompanhei Liz por uma escada que corria junto a parede, e após alguns degraus, deparei-me com outro corredor escuro no piso superior da casa. Apenas duas portas opostas em cada lado do corredor completavam o espaço cujas paredes agora já não apresentavam nenhuma decoração.
- Venha comigo Hugo - dizendo isto a misteriosa mulher dirigiu-se para a minha esquerda até o final do corredor, parando e encostando-se rente a porta colando seu ouvido na madeira para tentar escutar algum sinal do mordomo.
Parado ao seu lado eu olhava acima contemplando seu semblante de preocupação, diante da omissão de qualquer ruído proveniente do lado de dentro da porta. Com leves batidas na porta Liz rompeu o silêncio do ambiente:
- Livingtom!!... você está me ouvindo? - sua mão batia de novo na porta.
- Livingotm!...por favor!... - sem êxito a mulher forçava a maçaneta da porta que estava trancada do lado de dentro.
- É você Srta. Liz?... uma voz fraca e melancólica, mas que me era familiar escapou de dentro do quarto.Pela primeira vez pude ouvir a voz de Livingtom, o tom rouco e cansado não me deixavam dúvidas de que se tratava de alguém beirando os seus 80 anos.
- Livingtom, o que aconteceu?
- Há uma chave debaixo do tapete Srta. Liz
Abaixei-me imediatamente atendendo ao pedido de Liz, e após levantar o tapete marrom colocado bem a frente da porta do quarto, deparei-me com uma chave prateada presa a um cordão. Entreguei para minha acompanhante que destrancou a porta rapidamente e abrindo-a revelou-me uma visão que eu jamais esqueceria pelo resto de minha vida.
Deitado na cama com um aspecto cansado e doente, lá estava o "general". Com seu olhar profundo e seco observava-me em silêncio; seu semblante frio e circunspecto somado a pele pálida destacavam-lhe as rugas que cortavam seu rosto e passavam-me uma aparência desagradável. Reconheci aquele homem que permaneceu em silêncio me observando enquanto Liz arrumava o cobertor sobre seu corpo; tão autoritário aquele homem que conhecia, tão inflexível em seu mundo exterior mas ali naquela cama o contemplava tão frágil, tão entregue ao cuidado alheio, algo que ao menos para mim não combinava com aquela sua imagem dominadora que já conhecia, foi quando me veio a mente a seguinte indagação trazendo-me novamente a realidade:
- Liz, você me disse que ele se chama Livingtom?
- Sim Hugo...porque? - virou-se para mim ficando de costas para a cama.
- Eu conheço este homem Liz, mas ele chama-se Ernesto Laurentim Lofer e é o diretor do maior Colégio da cidade.
- Certamente Alfredo, mas permita-me explicar um detalhe - dizendo isto voltou-se novamente para o homem deitado que tossia, serviu-lhe uma xícara de chá quente que repousava sobre o criado, com cuidado arrumou o seu leito falando-lhe no ouvido algumas palavras que não pude distinguir, e convidou-me a descer novamente até a sala.
De volta a sala e sentado no mesmo sofá, percebi que Liz demorava para me explicar aquela situação confusa, finalmente tomou coragem, inclinando-se na minha direção, e bem próxima olhando-me fixamente nos olhos disse:
- Hugo, eu vou lhe contar um segredo, e o que vou lhe contar vai parecer estranho, vai ser difícil de acreditar, mas eu quero que acredite porque eu lhe asseguro que tudo o que disser é verdade, não tenha medo.
Naquele instante minha respiração diminuiu, e todo o meu ser foi envolvido pelo efeito daquelas palavras que aguçaram minha curiosidade.
- Hugo, esta não é uma casa comum, é uma casa diferente de todas as demais.
- Ainda não entendi Liz, eu percebi que ela é um pouco diferente de todas que eu conheço com todos estes objetos de decoração, coisas antigas...
- Pode até ser Hugo, mas não me refiro a isto, estou dizendo que a casa detém um poder mágico e transformador sobre as pessoas que entram aqui.Minhas palavras cessaram, e observei Liz paralisado pela história enquanto prosseguia:
- Hugo, qualquer pessoa que entre nesta casa, torna-se aqui dentro o oposto é lá fora, ocorrendo uma espécie de recriação da pessoa com uma inversão dos traços de sua personalidade.
- Não entendi nada...
- Tudo bem,...eu vou tentar explicar,...vamos tomar de exemplo o Livingtom.
- Você está dizendo o Ernesto "general" Liz?
- Sim,.. quando as pessoas entram aqui elas adquirem outro nome.
- E como você sabe os nomes?- Eu apenas pergunto e elas me dizem, foi assim com Livingtom,...quer dizer... com o "general", me parece que é assim que ele é conhecido lá fora.
- Isso mesmo Liz, todos o conhecem assim.
- Para você entender a magia da casa, me responde a seguinte pergunta: Como o "general" é visto lá fora Hugo? Como é o comportamento deste homem? Como é o jeito dele?
- Quase todo mundo acha ele um homem dominador, autoritário, o tipo que assusta e que quer se impor usando inclusive a força se for preciso.
- Viu,...eu já imaginava isto,... agora me responde outra pergunta Alfredo: sabe como é o jeito dele aqui na casa? Ao menos percebeu qual a função dele aqui?
- Ele é um mordomo Liz, até agora acho isto muito estranho, não consigo imaginar este homem assim.
- É porque aqui ele não domina e nem age autoritariamente Hugo, aqui ele serve, é um mordomo que atende a porta, entendeu agora?
- Estou começando a entender Liz, mas e quanto a mim? o que você vê de diferente agora? você vê alguma característica que eu não apresentava lá fora?
- Não Hugo, eu não vejo nada, ainda não lhe contei, as crianças como você são imunes a magia da casa.
- Imunes?
- Sim, quer dizer que não são atingidas pelo efeito, e isto porque as crianças são naturalmente expontâneas e não dissimulam como os adultos.
- Dissimulam?
- Sim Hugo, dissimulam quer dizer escondem algo, ocultam.
Continuamos a dialogar naquela sala, enquanto permanecia atento as palavras daquela mulher ilustrando-me alguns casos que resolvera contar-me, e assim fiquei sabendo de pessoas que haviam entrado naquele recinto, cidadãos anônimos ou personagens notórios daquela cidade que tinham seu comportamente e personalidade radicalmente transformados, invertidos; os soberbos tornavam-se humildes, os pacatos tornavam-se agressivos, os reflexivos transformavam-se em pessoas impulsivas e passionais, enfim, qualquer traço da personalidade de qualquer indivíduo que adentrasse aquele recinto, exceto uma criança, era transformado no seu exato oposto pela magia da casa, como se ali naquele lugar qualquer indivíduo estivesse parado diante de um "espelho as avessas" que lhe revelaria sua outra face.
A intrigante conversa com Liz me deixou totalmente alheio ao tempo, e somente me dei conta do adiantado da hora quando o relógio dourado de parede que destacava-se naquela sala, despertou-me com longas badaladas indicando que já eram 22:00hs. Não tive tempo de prosseguir com a conversa embora desejasse fazê-lo intensamente, e enquanto me dirigia para a porta de entrada atravessando o longo corredor ricamente decorado, não pude deixar de fazer as três últimas perguntas daquela noite:
- Liz, por que você nunca saiu da casa?
Por alguns breves instante aquela linda mulher me olhou, esboçou um sorriso discreto e respondeu-me com muita tranquilidade:
- Eu acho que pelo fato de que certamente eu não vou gostar de minha personalidade no seu mundo Hugo,...fico pensando, se aqui eu sou desta forma que você me vê e da qual eu gosto,... como seria esta minha personalidade lá fora e revelada de maneira oposta?... talvez não seja agradável,... talvez carregue algum traço reprovável que aqui na casã não se manifeste, mas se atravessasse esta porta então ele seria inevitavelment exposto.
As mãos de Liz tocaram na maçaneta da porta e quando preparava-se para abri-la questionei-a novamente:
- Porque as pessoas fogem daqui mesmo não conhecendo a casa?...Por que as pessoas fogem só pelo fato de verem o mordomo abrir a porta?
- Porque o mordomo a que você se refere é uma pessoa conhecida desta cidade, sobretudo no que se refere a sua personalidade, e assim, qualquer um que se depare com alguém cuja imagem formada no imaginário de sua sociedade, é exatamente o oposto do que ele vê aqui quando a porta se abre, sofre inevitavelmente um estranhamento Hugo, toma um susto, uma reação de incompreensão que causa temor e os afasta da casa; pelo menos é o que tem ocorrido há vinte e oito anos até você aparecer hoje por aqui.
Fiquei em silêncio; passei pela porta pensando nas palavras daquela mulher, enquanto novamente sentia a brisa gelada da noite que atravessava o beco e invadia o recinto. Numa última olhada para Liz agradeci a cordialidade de me receber, e a coragem de me confiar tão fantástico segredo, e lhe fiz a última pergunta daquele nosso encontro apontando com o braço esquerdo para a placa localizada bem acima da porta:
- O que significam as iniciais "L.L.D."?
- São iniciais de três palavras Hugo: "Liberta-te, livra-te e descobre-te" - e tendo dito isto Liz me olhou por mais alguns instantes, enquanto era envolvido pela escuridão cada vez mais intensa do beco que retornava a medida que a porta fechava-se, transformando aquele clarão que escapava do interior da casa num facho de luz cada vez mais estreito que cortava a parede suja do lugar, até esvair-se engolido pela noite.
Comecei a caminhar para a entrada do beco procurando pelo grupo de Ricardo "boxeador", já imaginando a recompensa que havia conquistado com tamanha ousadia de minha parte. Meus passos apressaram-se enquanto me aproximava da rua procurando pelo vulto dos garotos em meio aquele lugar abandonado; então já distante, parado bem na entrada da viela no exato lugar aonde meus desafiadores haviam me observado há poucos minutos, percebi que haviam partido. Dei uma última olhada para trás e pude ver a porta da casa de Liz, agora uma pequena porta, distante, quase que imperceptível, absorvida pelo mistério e pelas sombras daquele beco, como que provocando qualquer passante que estivesse naquele trecho da cidade e contemplasse aquela insignificante porta esquecida, ainda que por apenas poucos segundos, a atravessar o beco para descobrir seu segredo. Um casal cruzou a minha frente caminhando rapidamente em direção a uma confeitaria na esquina, e o barulho de um veículo que cortava a rua me deixou novamente de costas para o beco, fazendo-me partir para minha casa.

3 comentários:

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Mais um belo texto, perdido na blogosfera. Estou muito doente, Cris, mas assim que recuperar as minhas forças, tentarei achar algo para vc.
Fiz um post em intenção de uma amiga. É sobre a Trilogia das Cores. Passe lá e se achar que merece, deixe um comentário. Bem como no Stardust. Fique bem.
wwwrenatacordeiro.blogspot.com/
não há ponto depois de www
Um abraço amigo,
Renata

Crisfonseca disse...

Olá Cris,
encantei-me, teu conto não é um simples conto, é sublime.
Vc é um escritor Cris, tua escrita me seduz,tenho em teus textos uma leitura que me prende, que me faz querer ler e ler mais .
De minha imaginação nem me atrevo a falar, mas que minha mente tem grava a imagem do beco , da rua e da casa, ahhhhhhhhh Cris isso tem.
Meu caro escritor, que caminho lindo da escrita tu te encontras, e que presente poder le-las.
Super beijos,
Cris

mundo azul disse...

Gostei! Gostei muito!
É verdade que me pareceu ficar alguma coisa perdida nas entrelinhas...
Beijos de luz!!!