quarta-feira, 1 de julho de 2009

O PRESENTE DE OLIVER KLERICH


SEGUNDA-FEIRA, 28 DE JUNHO DE 2009.
Na véspera de completar oito anos de idade, Oliver Klerich recebeu a visita do seu tio Daniel Frandestik por volta das 21:00hs de uma quarta-feira, quando toda família estava reunida na sala de TV assistindo ao noticiário local. A residência dos Klerich localizava-se num quarteirão de casas tradicionais de um bairro nobre da cidade de Ishim. A casa fora passada de geração a geração e estava ali certamente há mais de cem anos. Durante este tempo fora restaurada por duas reformas; assim, quem passava em frente ao local deparava-se com uma construção de madeira nobre, janelas ornamentadas com belas plantas, e um pequeno corredor de pedras cortando o jardim frontal de gramas baixas bem cuidadas, terminando numa escada de sete degraus que levava à porta de entrada. De noite via-se a iluminação forte através das cortinas, além das luzes especiais do jardim que incidiam sobre o canteiro de flores conferindo um charme especial àquela imagem.
Naquela quarta-feira antes mesmo de Daniel Frandestik apertar a campainha da casa, o cachorro da família despertou do aconchego do tapete e começou a latir, correndo da sala de TV para a porta de entrada pressentindo a aproximação do visitante, mas os Klerich já aguardavam a presença do homem, cuja visita havia sido previamente anunciada ao pai de Oliver no dia anterior através de um telefonema. Impossibilitado de comparecer ao aniversário do sobrinho que ocorreria no dia seguinte, devido a uma viagem inadiável de negócios para a capital, Daniel não teve opção a não ser comparecer um dia antes para abraçar o sobrinho, e presenteá-lo com algo que trazia numa embalagem quadrada, enfeitada num papel colorido brilhante envolto por um laço vermelho. Sabendo antecipadamente da surpresa que aguardava o filho na porta de casa, o pai de Oliver Klerich deixou que ele próprio a abrisse naquela noite.
Ao abrir a porta de casa Oliver deparou-se com um homem de 58 anos, de estatura média, trajando um casaco de inverno azul escuro com listras negras que lhe descia um pouco abaixo da cintura, o pescoço estava protegido por um cachecol, tinha um olhar sincero por trás de um óculos grande de lentes retangulares, e um sorriso discreto esboçado nas maçãs gordas da face, porém um pouco escondido por um bigode grisalho. Oliver nutria uma estima especial pelo tio uma vez que Daniel trabalhara como marinheiro há 28 anos viajando pelo mundo. Tanto tempo a bordo de uma embarcação mercante, traziam histórias fantásticas que o sobrinho parava para ouvir toda vez que recebia a visita do tio em casa. Os braços do garoto envolveram o homem simpático que adentrou rapidamente na casa, e quando se afastou alguns passos permitindo que o tio se abaixasse para ficar na sua altura, segurou o misterioso pacote com as duas mãos que lhe foi entregue, observando-o cuidadosamente com os olhos brilhantes de euforia.
Enquanto Daniel se aproximava do irmão e saudava toda a família, o garoto subiu rapidamente a escada com o presente nos braços, em direção ao seu quarto localizado no primeiro andar da casa seguido pelo cachorro. Fechou a porta e sentou-se na cama escutando o ruido distante de seu pai e seu tio dialogando e rindo. Na privacidade do quarto seus dedos começaram a desatar o nó que envolvia a caixa que estava em seu colo, sob os olhares atentos do cão deitado embaixo de uma cadeira. Finalmente livrou-se do laço vermelho e com gestos rápidos rasgou o papel brilhante que ocultava o segredo, revelando-lhe uma caixa de madeira com uma tampa. Colocou a caixa sobre a cama e com cuidado removeu a tampa. Quando seus dedos retiraram o papel de seda que encobria o presente, Oliver reconheceu a figura de um pequeno boneco articulado de madeira preso no interior da caixa através de alguns grampos de metal. Aproximou seus olhos da caixa para vê-lo com mais detalhes, e pode constatar que o boneco era todo feito com pedaços de madeira polida, harmoniosamente encaixadas nas articulações através de alguns pequeninos parafusos, numa imagem que lhe conferia um certo aspecto humano. Ficou a observar por alguns segundos aquela simplicidade encantadora do brinquedo, notando que um pequeno toco de madeira representava a cabeça do boneco; não haviam olhos, boca, e nenhum detalhe na face. Oliver retirou o presente da caixa, trazendo para perto de si o boneco deitado inerte na palma da mão, com os frágeis braços de madeira escorrendo por entre seus dedos e as pernas caídas para o lado, mas o silêncio daquele momento foi rompido quando a mãe do garoto o chamou para baixo. Segurando o boneco nas mãos desceu a escada encontrando o tio já a porta. Depois da despedida carinhosa, o garoto jamais se esqueceria das últimas palavras que Daniel Frandestik lhe dirigiu discretamente na porta de casa naquela noite:
- Oliver, este brinquedo não é um simples boneco de madeira, trate-o como uma pessoa e ele vai ajudá-lo, mas guarde segredo destas palavras. - e dizendo isto Daniel desapareceu na escuridão da noite com passos apressados em direção ao carro.
A partir daquele dia Oliver levaria consigo o presente ganho do tio durante quase todo o tempo, e foi assim no dia seguinte mesmo em meio a outros presentes recebidos por ocasião de sua festa de aniversário. Na estante do quarto, livros novos dividiam espaço com miniaturas de carros e aviões recém-adquiridos, alguns jogos de tabuleiros empilhados no canto, uma caixa contendo inúmeras peças de um quebra-cabeças que ainda não o atraía, e uma bola de futebol no chão do quarto, coberto de pedaços rasgados de papel de presente; mas no criado situado ao lado da cama o boneco ocupava lugar de destaque encostado no abajur, como se observasse o garoto durante toda a noite. Pela manhã quando descia para tomar o café levava o boneco e o colocava sentado na mesa ao lado de seu prato, repetindo o gesto na hora do almoço, e pela noite sob os olhares curiosos da mãe que permitia. Ao sair para a escola o escondia cuidadosamente dentro da mochila, e assim passava toda a tarde com o brinquedo sob seus cuidados de modo que nenhum outro garoto da turma descobrisse.
Passaram-se duas semanas até que certa noite Oliver despertou durante a madrugada, após ouvir um barulho que parecia vir de sua estante de brinquedos. Deitado na cama o garoto observava o ambiente de seu quarto banhado pela frágil luz daquela noite, que atravessava a janela e invadia o recinto com uma penumbra que lhe permitia ver vagamente os objetos espalhados naquele espaço. Sentado no tapete da porta de entrada, o cão permanecia imóvel olhando fixamente para a estante de brinquedos como se denunciasse algo para o dono. Quando Oliver olhou para o lado notou que o boneco de madeira havia desaparecido de seu lugar costumeiro ao lado do abajur. Assustado o garoto saltou da cama olhando para o cão com um ar recriminador imaginado que o animal havia pego seu presente, quando foi surpreendido mais uma vez por outro ruído que parecia vir de trás das caixas empilhadas. Um temor apoderou-se de Oliver fazendo com que o cão latisse voltando toda a atenção para a estante. Parado ao lado da cama o garoto observava a pilha de caixas com receio de aproximar-se, e por alguns instantes teve a impressão de que as caixas estavam sendo arrastadas, pareciam deslizar vagarosamente sobre a superfície.
Por alguns segundos o garoto permaneceu imóvel com olhar fixo nas caixas de jogos amontoadas no canto da estante, não havia mais dúvida mesmo diante da luz fraca presente no quarto de que algo movia as caixas para a frente. Oliver estendeu o braço esquerdo e sua mão apanhou o taco de beisebol encostado na parede; tomou coragem e temendo tratar-se de um rato deu dois passos em direção as caixas, enquanto juntava suas mãos levantando os braços pronto para golpear o roedor com o taco, assim que o intruso surgisse diante de seus olhos. Mas quando seus braços estavam prestes a desferir o golpe mortal foi surpreendido pela imagem mais inacreditável de sua vida; assustado pode reconhecer aquelas pequeninas mãos de madeira que empurravam as caixas para frente. O garoto não conseguia acreditar no que via, a menos de um metro de si o boneco presenteado pelo tio saiu de trás das caixas, caminhando naturalmente como se fosse uma pessoa, até ficar parado em pé na estante diante de Oliver.
O cão permanecia atento ao misterioso boneco de madeira, mas de repente latiu, fazendo o brinquedo correr novamente para trás das caixas e o garoto abaixar o taco de beisebol. Oliver levou o cachorro para fora do quarto, trancou a porta e voltou a ficar parado diante da estante gesticulando vagarosamente para o boneco voltar.
- Venha, não tenha medo, eu já tirei Scott daqui! Venha! Venha!
E assim novamente aquele pequenino corpo de madeira saiu de trás da escuridão das caixas, e com breves passos aproximou-se de Oliver, postando-se em pé na superfície da estante na altura dos olhos do garoto surpreso diante do que presenciava.
Os dias se passaram e não demorou muito para que o garoto descobrisse que o boneco ganhava vida somente de noite. Certo dia encarando o brinquedo que caminhava pela mesa de estudos e tentava abrir um pequeno baú, tomou a ousadia de perguntar pelo nome do desconhecido amigo, e qual não foi a surpresa do garoto ao ver que o boneco abaixou-se na mesa, apanhou um pedaço de lápis com as duas mãos, e meio desajeitado riscou na superfíce clara o nome STILL. Em certas ocasiões, mesmo não tendo olhos o boneco parecia encarar o garoto, e quando a resposta limitava-se a um sim ou não, gesticulava a cabeça de maneira afirmativa ou negativa o que bastava para que se fizesse entender.
Dois meses depois Daniel reapareceu num domingo e levou Oliver para um passeio no parque central da cidade. Enquanto caminhavam pela rua deserta típica de um final de semana, o tio observou o garoto que segurava o boneco numa das mãos e lhe perguntou:
- Sua mãe me disse que você não se separa deste boneco Oliver! como vai o Still? - esboçou um sorriso na face esperando a resposta do sobrinho.
- Ele vai bem, por que não me disse que ele era vivo? - o garoto olhou para o tio enquanto continuavam a caminhar em direção ao parque.
- Porque não seria uma surpresa, e porque eu não teria marcado aquele dia para o resto da tua vida como eu consegui com este presente Oliver; acho que jamais vai esquecer o dia em que viu Still pela primeira vez na tua estante.
E assim a tarde de domingo passou com Daniel respondendo ao garoto sobre o misterioso presente, numa conversa repleta de perguntas de um menino inocente e curioso. Sentado no banco da praça, de frente para um lago cujas águas paradas formavam um espelho amarelo refletindo a luz do sol, o velho marinheiro encarou o sobrinho mais uma vez e num tom sério lhe disse:
- Tem uma coisa sobre o Still que eu ainda não contei.
O garoto segurava o boneco imóvel nas duas mãos, e voltou-se atento para as palavras do tio:
- Você deve cuidar do Still...tem que cuidar dele para sempre Oliver...
- Esta bem tio.
- Preste atenção filho... tem que cuidar e brincar com Still até quando estiver adulto... nunca pare entendeu?
- Entendi, por que tio? por que não posso parar?
- Porque no dia em que a tua infância morrer,... o velho deteve o folego por alguns segundos antes de prosseguir, parecendo receoso diante da revelação prestes a fazer ao menino - Still também morrerá, o boneco também morrerá Oliver, você entendeu filho?
Daniel Frandestik observou o sobrinho apenas confirmar afirmativamente com a cabeça e sem palavras naquela tarde de domingo. Com o semblante preocupado e os olhos marejados o garoto observou o tio assustado diante das duras palavras proferidas, mas rapidamene ambos voltaram a conversar com o velho marinheiro tentando tranquilizá-lo, e explicando novamente que Oliver deveria tomar o cuidado de jamais abandonar o presente, pois caso contrário Still se tornaria um simples boneco de madeira sem vida.

QUARTA - FEIRA, 1 DE JULHO DE 2009.
Enquanto redijo estas linhas em meu diário, e transmito ao leitor esta inacreditável história de minha infância, penso no quão absurdo foi minha atitude de não tomar o devido cuidado, depois de ter sido alertado pelo meu tio na tarde daquele domingo. Não há um dia em que não me culpe pela morte de meu amigo, levando comigo as lembranças daqueles mágicos e inesquecíveis momentos, presentes durante todos estes anos em que mantivemos este segredo vivo juntamente com meu tio Daniel, que jamais revelou qualquer palavra a outra pessoa. Eu já não meu lembro com certeza, hoje estou velho, tenho família, e sou um empresário bem sucedido no setor de construção; mas aproximadamente quatro anos depois de nossa conversa no parque, certa noite encontrei Still imóvel encostado no abajur, sentado e caído de lado no criado de cabeceira da cama. A princípio não me preocupei esperando que num passe de mágica o boneco retornasse à vida como fazia todas as noites, mas o tempo foi passando, passando, e Still permaneceu imóvel encostado no abajur naquele aspecto triste e abandonado de um brinquedo esquecido e superado pelo tempo. Passei aquela noite em claro sentado na cama observando o boneco e esperando em vão por algum sinal de vida durante toda a madrugada, até que me lembrei das palavras de meu tio Daniel, fazendo com que minha própria conduta daquela semana caísse sobre mim como a mais temível condenação que já recebi. O motivo da morte de Still não é difícil de ser deduzido pelo sábio leitor de minhas linhas. Fazia uma semana que eu não levantava durante as madrugadas para brincar com Still, e assim não percebi que o tempo me distanciou do meu amigo, e que as novidades adquiridas com o passar dos anos, bem como o fato de que passava cada vez mais tempo fora de casa, o tornaram um presente obsoleto. Curiosamente tenho a vaga lembrança de naquela semana ter sido incomodado por alguma força que tentava me acordar todas as noites, algo que parecia querer puxar o cobertor sobre meu corpo no intuito de me despertar. Hoje não tenho mais dúvidas de que esta força eram as pequeninas mãos de madeira de Stilll, tentando sem sucesso me acordar de algum jeito enquanto teve vida.
Agora estou sentado na mesa do escritório de minha casa, no silêncio da noite, e neste momento sempre sinto falta daquelas brincadeiras de infância, e de Scott que agora trocou de dono e passou a morar na casa de minha filha. Ainda conservo o abajur que está sobre a mesa próximo a este diário, e bem a minha frente coberto pela luz amarela está o incrível presente que ganhei de Daniel Frandestik há muitos anos. Esta imagem é uma sentença que me acompanhará em silêncio pelo resto de meus dias. Sempre que entro neste escritório e observo minha mesa, todos os demais objetos desaparecem com exceção de apenas um; meus olhos se detém num pequeno boneco de madeira que permanece sentado ao lado do abajur, olhando para baixo, parece solitário numa atitude reflexiva. As vezes me pego chamando por ele, da mesma forma que no primeiro dia em que o vi escondido atrás das caixas de jogos acuado pelos latidos de Scott. No fundo ainda nutro um resquício de esperança de que Still algum dia reviva na mesa de meu escritório e saia andando por ele.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

CARTA PARA Mrs. BATHO WENSBURNY


Em 17 de Setembro de 2005 a agência dos Correios da cidade de Falmouth, foi demolida por um grupo de presidiáros designados para prestar uma série de serviços comunitários nos arredores da região. O ar frio daquela manhã de inverno inglês invadia o uniforme dos presos, enquanto um grupo de guardas reunidos em círculo observavam os detentos, saboreando o café quente trazido por uma moradora local. A imagem de um grupo de aproximadamente 30 homens revirando os escombros de concreto e ferragem, amontoando as ruínas da antiga estação postal, e removendo-as em carriolas até um caminhão estacionado do outro lado da rua, chamava a atenção da pacata população local. Numa atitude natural de desaprovação as pessoas atravessavam do outro lado da rua observando atentamente, algumas paravam diante dos guardas e se informavam acerca do fato, tomando conhecimento de que a antiga construção agora cederia espaço à um escritório de uma seguradora, enquanto outras nem mesmo prosseguiam o percursso ao reconhecer os uniformes que identificavam os criminosos, preferindo retornar e fazer outro caminho. Assim quiz o destino que naquela manhã um dos detendos chamado Arthur Crosswer, encontrasse no meio dos escombros um envelope amassado e perfeitamente lacrado coberto de poeira. Cuidadoso com o olhar vigilante dos guardas Arthur escondeu estrategicamente o envelope na manga da camisa, até o momento seguro em que pode assoprar a poeira, e descobrir que um dos lados da carta trazia apenas o nome "Mrs. Batho Wensburny" escrito elegantemente. Tomou a liberdade de indagar alguns companheiros se conheciam tal sobrenome misterioso obtendo apenas a resposta negativa. Aproximou novamente o papel sujo dos olhos, e ao virar o outro lado da carta encontrou a mais enigmática escrita que já lera em sua vida: "Não abrir até Setembro de 2005." Um turbilhão de pensamentos confusos inundou a mente de Arthur enquanto observava a frase corrida aparentemente sem sentido diante de seus olhos. Escondeu a carta no bolso da calça temendo ser descoberto pelo guarda mal encarado que aproximava-se.
Quando o toque de apagar as luzes foi dado pontualmente as 22:00hs, todas as celas num movimento uniforme escureceram deixando apenas a iluminação central do corredor acesa. Engolido por aquele edifício frio cujas paredes sujas das celas quase sempre estavam cobertas de desenhos de crianças, fotos de familiares, recortes de jornais, e outros elementos permitidos que tornassem aquele espaço menos opressor para os ocupantes, Arthur Crosswer permanecia deitado na parte de baixo do beliche da cela número 354, para a qual havia sido transferido há dois dias. Condenado por estelionato e considerado um dos falsários mais inteligentes da Inglaterra, o homem magro e baixo com aparência de fraco e o cabelo negro penteado para trás, fora pego depois de meses de investigaçôes através de um plano muito bem arquitetato pela Scotland Yard. E assim há 8 meses a astúcia criminosa de Arthur sucumbira diante da inteligência da polícia inglesa o colocando naquele presídio. Mesmo deitado seus olhos observavam o pequeno espaço que o cercava; o canto era ocupado por um vaso sanitário e uma pia encardida com um sabonete e algumas escovas dentro de uma garrafa de plástico. Olhou para a parede e pode ver que um pedaço sujo e escuro descoberto, trazia o que pareciam ser dois nomes escritos diretamente no concreto, não conseguiu lê-los de onde estava, e preferiu permanecer deitado examinando o ambiente. No chão havia uma sacola com roupas do companheiro de quarto, um assaltante de bancos chamado Robinson Valterez que havia sido condenado recentemente a 6 anos de prisão, e que dormia profundamente. Quando o guarda passou vagarosamente em frente a cela fazendo a ronda da noite, Arthur fingiu estar dormindo pois sabia que aquela era a última checagem do dia; logo depois como faziam cotidianamente, os vigias se reuniam na sala com uma pequena TV ligada, e sentados a mesa atravessavam a madrugada em meio ao jogo de cartas, alheios ao que acontecia nas celas desde que permanecessem as escuras.
A luz fraca do corredor bastava para que Arthur Crosswer pudesse ler a carta que guardara consigo durante todo o dia. Colocou a mão no bolso e retirou o envelope antigo e amassado, relendo o desconhecido nome "Mrs. Batho Wensburny" e a inexplicável observação "Não abrir até Setembro de 2005". Rasgou o envelope amarelado pela extremidade retirando duas folhas de papel, e desdobrou-as encontrando uma caligrafia que começava da seguinte forma:
"Mrs. Batho Wensburny,
É com imenso prazer que lhe dirijo estas palavras. Se estiver lendo estas linhas confome minhas orientações indicadas na carta, então deduzo que este envelope foi aberto somente em Setembro de 2005, tempo mais do que necessário para que meu objetivo se realizasse e lhe beneficiasse igualmente. Peço minhas desculpas por estas palavras aparentemente confusas, sendo assim permita-me explicar os fatos imediatamente: Há um ano estive no presídio de Falmouth trabalhando como médico, e durante este tempo conheci um homem chamado Bernard Roschild. Tomei conhecimento de que Bernard Roschild era um engenheiro reconhecido da sociedade local, e que fora condenado há 7 anos de prisão por ter atirado e ferido um rival, que lhe provocara por ocasião da festa de inaugurãção de um Hotel da cidade. Com o passar do tempo adquiri a confiança de tal homem, que certa noite me revelou um segredo numa roda de conversa na mesa do refeitório; disse-me então ter um plano de fuga em andamento planejado com outros quatro presidiários. De acordo com Bernard Roschild em Maio de 2005 um túnel havia começado a ser cavado do lado de fora do presídio, por um grupo de homens de confiança extremamente cuidadosos com a execução de todos os detalhes. Assim segundo os cálculos de Bernard todo a execução do plano levaria quatro meses. Depois daquele dia voltamos a conversar algumas vezes sobre o andamento do plano, mas infelizmente três semanas depois Bernard foi transferido para um presídio em Londres, juntamente com mais doze homens numa decisão tomada pelo diretor do presídio sem maiores explicações. Cheguei a imaginar que tal homem certamente teria descoberto o plano de Bernard, mas percebi que isto não ocorreu, pois nenhuma vistoria havia sido feita na cela Bernard indicando que a decisão não fora tomada em razão do plano de fuga. No dia seguinte fui imediatamente contatar os homens que executavam o plano, previamente avisado por Bernard acerca do local e da forma segura de me apresentar. E é aqui que esta carta lhe interessa em especial Mrs. Batho Wensburny. Bernard Roschild foi transferido na mesma época em que seu filho adentrou no presídio, depois de ter sido condenado injustamente no caso que repercutiu em toda Falmouth. Não vou me aprofundar no caso em questão, mas é sabido hoje com toda segurança que seu filho é inocente do crime que foi condenado, numa manipulação muito bem arquitetada pela acusação. Infelizmente as evidencias irrefutáveis da inocência de seu filho surgiram depois que a sentença fora dada. Depois de encontrar o grupo de Bernard Roschild, fiz um acordo com os homens no qual eles continuariam com o plano em andamento, em troca de um valor que eu pagaria quando seu filho fosse resgatado do presídio. Consegui a soma com diversas pessoas de confiança que se mostraram indignadas com a condenação de Scott, e assim reuni o montante estabelecido pelo grupo de Bernard para prosseguir com o plano conforme combinado. Por isso estou lhe mandando esta carta, se os cálculos de Bernard Roschild estiverem corretos, os homens devem estar acabando o túnel nos próximos dias, e de acordo com o mapa mostrado a mim quando os encontrei, o túnel chagará exatamente na cela em que seu filho se encontra, pois obtive informações cuidadosas de dentro do presídio acerca do prédio e da cela que ele ocupa. Peço minhas siinceras desculpas pela ousadia de tal ato, e admito que atravessei a minha própria fronteira moral e ética, mas diante de tamanha injustiça perpetrada contra um homem, não nos restou outra saída a não ser livrar seu filho deste lugar no qual nunca deveria ter pisado. Assim sendo peço que contate teu filho se possível preparando-o para a fuga, uma vez que minhas tentativas se mostraram infritíferas, pois fui impedido de encontrá-lo pela própria administração da prisão que não me deu maiores satisfações. Acredito que não agiriam desta forma com uma mãe que tentasse visitar seu filho, sensibilizados pela tua presença. Ademais agradeço a espera de abrir esta carta no tempo oportuno, pois se o fizesse anteriormente poderia comprometer a segurança do plano dos homens de Bernard Roschild. Desejo sinceramente que esta carta lhe encontre bem e com saúde, pedindo a sua compreensão para o que fizemos, na certeza de que o plano terá o desfecho por todos nós almejados, e que portanto muito em breve seu filho não mais ocupará a cela 354 desta prisão. Com todo o respeito e solidariedade que lhe dedico.
Um amigo anônimo representando as vozes indignadas de Falmouth."
Arthur Crosswer deu um salto levantando-se da cama surpreso quando leu o número 354 escrito na carta. Em pé na penunbra do quarto, segurava a carta nas mãos e observava novamente o número que saltava aos seus olhos, informado no relato do misterioso médico que acabara de ler. Seu corpo permaneceu imóvel mas interiormente agitado, deu uma olhada na direção da sala dos guardas pra se certificar de que ninguém percebeu seus movimentos, e encostou na grade fria de ferro pensando em silêncio com o olhar distante focado na luz central do corredor. Permanceu imerso na imensidão de informações e coincidências que por alguns minutos inundaram seus pensamentos. As perguntas brotavam em sua mente num ímpeto descontrolável, Aonde estaria o filho de Mrs. Batho Wensburn? E quanto a número da cela informado na carta?
- Ei!..Robinson!... Robinson!... acorde!... acorde! - as mãos de Arthur empurravam o homem tentando-o despertar no silêncio daquela madrugada.- vamos! - Arthur tentava acordar Robinson tomando cuidado para que o seu tom de voz não o denunciasse.
- Acorde!.. Robinson?... acorde!,... preciso lhe fazer uma pergunta!- continuou empurrando o companheiro que despertou preguiçosamente e com uma cara de mau-humor.
- O que foi?... droga!... sabe que horas são? - o homem espreguiçou na cama e descobriu-se com o lençol, observando com os olhos cerrados Arthur em pé no meio da cela, segurando duas folhas de papel nas mãos e esboçando um sorriso no rosto.
- Qual é a graça Arthur?... me acorda no meio da madrugada e ainda acha graça? - o semblante de Robinson adquiriu um ar de raiva diante da visão de Arthur observando-o, e antes que ele o agredisse foi interrompido pelas palavras de Arthur:
- Calma meu amigo, tenho boas notícias para nós dois, asseguro que depois que me ouvir vai me agrader por tê-lo acordado, mas antes me responda uma pergunta: Quem ocupou esta cela antes de mim?
Robinson sentou-se na cama, passou a mão na barba por fazer, e arrumando os cabelos olhou para Arthur respondendo:
- Um garoto estranho aqui de Falmouth, o tipo quieto sem muita conversa, ficou aqui poucos dias.
- Lembra-se do nome?
- Não, nem coversava com este preso, passava o tempo todo lendo cartas que recebia, espera! espera um minuto!...
- O que foi?
- Ali na parede!..Ali! - dizendo isto Robinson levantou o braço esquerdo apontando-o para o canto escuro da parede, que continha os dois nomes escritos no concreto que Arthur já tinha visto enquanto estava deitado. - ele escreveu o nome ali Arhtur!
Arthur Crosswer aproximou-se da parede escura, e pode ver um pouco acima de sua altura as marcas riscadas. Quando seu rosto chegou bem perto da parede, a escrita ilegível no concreto revelou-se diante de seus olhos confirmando suas suspeitas. Seus olhos puderam ler no ponto mais alto o nome Bernard Roschild sulcado na massa escura de concreto, e logo abaixo o nome Scott W.
- Scott Wensburny! - repetiu consigo enquanto Robinson o observava sentado na cama.
Depois de alguns segundos refletindo enquanto observava os dois nomes registrados na parede, Arthur Crosswer virou-se novamente em direção ao companheiro de cela indagando-o:
- O que houve com Scott W? Ele foi transferido daqui?
- Não, ele foi solto, conversando com um dos guardas fiquei sabendo que o pobre garoto era inocente da acusação. Alguém conseguiu retirá-lo deste lugar.
O falsário voltou a sentar na cama, dobrou novamente as folhas guardando-as no bolso, enquanto pensava em toda história que acabara de ler. Robinson desceu da parte de cima do beliche e aproximou-se de Arthur confuso com as perguntas no meio da noite. Sentou numa banqueta baixa encostada na cela, e o encarou perguntando:
- Porque o interesse em Scott W?
- Porque este homem vai nos ajudar a fugir daqui meu amigo. - dizendo isto esboçou um sorriso discreto que deixou Robinson ainda mais confuso.
Arthur Crosswer deitou novamente na cama, com a cabeça descansando nas mãos colocadas para trás sobre o travesseiro, e respirou profundamente pronunciando a seu companheiro as últimas palavras daquela noite antes de pegar no sono:
- Arrume suas coisas, fugiremos nos próximos dias.
As palavras de Arthur Crosswer prenunciaram o que se seguiu dois dias depois no presídio de Falmouth. No dia 20 de Setembro quando o guarda encarregado do turno da manhã, deu o toque para os detentos saírem da cela e assim prosseguir a contagem de presos, notou que dois homens daquele prédio não obedeceram ao chamado. Apitou mais uma vez advertido os ocupantes da cela 354 de que tal demora implicaria em punições mais severas, mas novamente não obteve respostas. Quando o guarda chegou na entrada de cela, ficou imóvel diante da imagem que viu: a pequena cela estava completamente vazia, não haviam roupas e nenhum objeto dos ocupantes; e bem no meio do chão, naquele espaço reduzido, um buraco de aproximadamente 70 centímetros de diâmetro com terra e pedaços de concreto quebrado espalhados pelo piso. Enquanto do lado de fora todos os presidiários observavam em silêncio e curiosos a cela 354, e os guardas corriam afoitos atendendo ao alarme de fuga disparado, Arthur Crosser e Robinson Valterez atravessavam a fronteira do condado em segurança auxiliados pelos homens de Bernard Roschild.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O EMISSÁRIO DA LUA CRESCENTE

Aconteceu numa quinta feira chuvosa. Inclinado sobre a mesa de meu escritório, folheava algumas anotações para compor um texto que me fora pedido pelo chefe de uma editora de livros. O silêncio da madrugada foi rompido pelo ruído da água da chuva batendo no vidro da janela, juntamente com o vento cortante que balançava as árvores. Sempre gostei de escutar aquele som da chuva que se faz presente nas noites de sono. Quando fechamos os olhos reclinados no travesseiro e não pensamos em absolutamente nada, reclusos a nós mesmos, apenas aguardando o corpo ceder a ausência de pensamentos, para então deixarmos este mundo visível e mergulharmos nos mistérios daqueles momentos de uma quase inexistência terrena. Minha mão retirou do casaco o relógio de bolso que me fora presenteado por meu avô. Puxei o relógio pela corrente dourada que brilhava e que me acompanhava há 35 anos. Aquela peça resistira ao tempo e a modernidade, e continuava funcionando com precisão e elegância próprias, típica de um objeto que já não se encaixava naquele cenário. Foi então que escutei o ruído na porta principal, as batidas secas e insistentes me despertaram de um sono que dominava-me aos poucos anestesiando meu corpo sorrateiramente. Descansei a caneta no tinteiro, e devolvi o maço de folhas de papel no canto da mesa; as batidas prosseguiam e fizeram-me ajeitar o casaco com pressa, descendo rapidamente os degraus que me levaram a sala principal. Meus dedos aproximaram-se da fechadura da porta, e quando a chave foi colocada no buraco da tranca de metal, fui surpreendido por um cartão que foi jogado por de baixo da porta deslizando até parar ao lado de meu pé esquerdo. Inclinei-me e apanhei o pedaço de papel que trazia apenas as seguintes palavras escritas em vermelho: “Caro Sr. Paulo Strik, o encontrarei hoje às 23:00hs”. O curioso cartão não trazia nenhuma assinatura e tampouco o local do citado encontro. Terminei de destravar a fechadura, e abri a porta encontrando apenas a claridade fraca de um poste de luz que iluminava o jardim. Além dos muros da casa observei dois guardas distantes caminharem vagarosamente por entre as árvores, e em seguida desaparecerem ao dobrarem a esquina engolidos pela preguiçosa névoa que invadia as ruas. Não havia mais sinal de ninguém. De volta ao escritório, reclinado no sofá que ocupava o canto daquele cômodo, observei novamente o cartão cujas palavras enigmáticas permaneceriam na minha mente até a noite do dia seguinte. Não imaginava que estava preste a receber o mais estranho e inesquecível visitante de toda a minha vida.
É estranho como o tempo parece desacelerar quando estamos na expectativa de algum acontecimento; e nunca me senti tanto a mercê do tempo quanto naquele dia, inevitavelmente vulnerável àquela situação em que todo o cotidiano de nossas vidas parece insignificante diante de um desdobramento do destino. O relógio da parede marcava 19:00 hs. quando fechei a pequena janela do escritório. Debruçado sobre a mesa escura de madeira, observei a xícara de porcelana azul bem a minha frente dividindo o pequeno espaço com a antiga máquina de escrever e o rádio; um vapor subia do seu interior e espalhava o aroma de café em todo o recinto. No canto esquerdo um armário continha diversos livros empilhados organizadamente, alguns empoeirados pelo esquecimento, outros recheados com folhas de anotações e marcadores de páginas; nem mesmo a governanta do lugar atrevia-se a mexer naquele ambiente após minhas recomendações. Disputando o espaço dos livros, uma caixa de madeira nobre do oriente ricamente detalhada adormecia no canto da estante, trancada por um pequeno cadeado prateado. Um porta-retratos e uma pilha de jornais amontoados dividiam a prateleira mais baixa. Meus olhos detiveram-se no porta-retratos, que trazia a imagem de um garoto com um sorriso inocente vestindo um boné preto e um macacão sujo de barro. Seus braços envolviam um cão que olhava atentamente para a foto. O belo animal de pelagem branca e maior do que o garoto convivera naquela casa por onze anos. Meus pensamentos me levaram novamente para minha infância, enquanto observava fixamente aquela fotografia, e assim fui inundado por inocentes e alegres lembranças ao me reencontrar com aquela imagem eternizada no tempo.
A escuridão exterior parecia querer invadir meu espaço, impedida apenas pelo vidro da janela e pela forte luz daquele cômodo. Bebi mais um gole do café e reclinei-me na cadeira, distinguindo apenas o distante ruído da empregada arrumando as panelas na cozinha. Comecei a recapitular aquela quinta-feira já quase terminando; em todos os momentos e em todos os afazeres de um dia agitado, minha mente sempre estivera centrada nos acontecimentos daquela madrugada, e nas palavras do cartão prenunciando uma visita que se fosse confirmada, estaria há poucas horas de apresentar-se diante de mim. Naqueles minutos de descanso estendi o meu braço e puxei o primeiro jornal da pilha que aumentava no armário, quebrando a rotina de algo que fazia toda manhã. Desdobrei o jornal do dia e após folhear algumas páginas encontrei uma matéria redigida por um repórter local cujo título em letras grandes e negras dizia: “MAIS UM DESAPARECIMENTO DO EMISSÁRIO DA LUA CRESCENTE?”, e assim prosseguia o relato: “As autoridades que investigam o desaparecimento dos três cidadãos nos últimos meses já o apelidaram de O emissário da lua crescente, (alcunha lhe atribuída em função do misterioso criminoso agir somente em noites de lua crescente). Embora os acontecimentos ainda estejam cercados de muitas suposições, tendo em vista que até o presente momento nenhuma testemunha o viu agindo, os fatos até agora corroboram para o inquestionável seqüestro das três vítimas, todas desaparecidas pelo mesmo espaço de tempo de uma semana, numa ação criminosa bem planejada sem deixar rastros para os investigadores. Na última declaração a imprensa o chefe de polícia afirmou que os desaparecimentos estão interligados, pois a perícia encontrou nas casas de todas as vítimas um pequeno cartão manuscrito contendo poucas palavras, cujo conteúdo ainda permanece em sigilo a pedido do comissário para não atrapalhar as investigações. Acerca das declarações das vítimas, o comissário afirmou ainda não terem os depoimentos contribuído substancialmente para o esclarecimento do caso, embora tenham apresentados vários pontos em comum. A assessoria de imprensa do departamento de polícia, informou que desde o retorno a suas casas os ex-desaparecidos permanecem incomunicáveis sob tratamento psiquiátrico, em razão dos depoimentos indicarem um forte estado de desequilíbrio emocional.” Uma sensação de temor e alerta percorreu todo o meu corpo quando terminei de ler aquelas linhas, e o primeiro pensamento inevitável foi o de considerar a possibilidade de ter me tornado na próxima vítima do misterioso visitante que batera a minha porta. Puxei o cartão do meu bolso, o coloquei sobre a mesa diante de meus olhos, e o reli por várias vezes imerso num explosão de sentidos que me atemorizavam de forma descontrolada. Rapidamente me levantei da cadeira, e com o jornal a mão, corri para a janela puxando o pequeno pino da trava empurrando o vidro para fora; meus olhos observaram a imensidão negra celeste pontilhada de estrelas sob minha cabeça, aquela silenciosa e desordenada cúpula de faíscas prateadas, rendia-se a beleza de uma lua brilhante encoberta parcialmente, confirmando ainda mais meus temores acerca do tempo naquela noite. Meus olhos detiveram-se por alguns instantes naquela imagem, hipnotizados pelo temor que a visão daquela lua alimentava em meus pensamentos, e somente retornaram para o interior do escritório quando escutei uma desconhecida voz bem próxima a mim romper o silêncio, denunciando que havia mais alguém naquele recinto.
- Boa noite Sr. Strick!... – uma voz forte denunciava um homem que encontrava-se a poucos passos da janela, e o medo novamente percorreu meu corpo paralizando-me por alguns segundos antes de me virar.
O relógio da parede marcava exatamente 23:00hs quando um visitante desconhecido de aparentemente 40 anos, parado em pé no meio do escritório vestindo um sobretudo negro e segurando uma pasta, retirou o chapéu para em seguida inclinar-se num gesto cordial diante de mim. Meus olhos detiveram-se com mais atenção naquela cena; por baixo do sobretudo uma calça azul escura descia elegantemente até os sapatos negros que brilhavam, pude perceber ainda que trazia na cintura um punhal, cujo cabo estava repleto de símbolos estranhos. Vestia uma camisa branca e uma gravata também azul.
- Perdoe-me se o assustei com minha súbita aparição, esta é uma situação recorrente e embaraçosa no meu trabalho, quase sempre assusto meus anfitriões. – dizendo isto o misterioso homem colocou o chapéu em baixo do braço e estendeu a mão esquerda em minha direção. Os olhos escuros observavam-me atentamente, a face alongada encoberta por espessos cabelos negros e os nariz curvilíneo conferiam-lhe um ar sombrio . Os lábios pequenos deixaram escapar um sorriso antes de me dizer seu nome:
- Permita-me apresentar,... meu nome é Eliot Vandrabe.
- O meu é Pa....- subitamente fui interrompido pelas palavras daquele homem..
- Paulo Strick!... eu já sei.
- Como? Como sabe? Eu asseguro que não o conheço. – lembrei que de fato Eliot Vandrabe conhecia meu nome, pois já o havia lido no cartão que me fora enviado.
- Mas eu o conheço há muito tempo Sr. Strick – o homem sentou-se na cadeira colocando a pasta no colo, o chapéu no chão, e convidou-me a tomar o outro assento prosseguindo - Sr. Strick, certamente esta será a conversa mais incomum que já teve na sua vida, acredite! Não vai crer em tudo o que vai escutar embora eu assim deseje profundamente.
- O que está havendo? Como entrou na minha casa?
- Por favor, eu lhe peço, sente-se comigo e tentarei lhe explicar o motivo de minha visita. – apontou mais uma vez a mão em direção a cadeira que ainda permanecia vazia próximo a mesa.
Me afastei da janela e decidi atender ao pedido, ajeitando-me na cadeira enquanto Eliot Vandrabe observava-me abrindo sua pasta e retirando um grosso livro e uma caneta.
- Como você entrou na minha casa? É um ladrão!? Arrombou a porta sem os empregados perceberem?
- Não, não arrombei a porta de entrada, e muito menos entrei por ela Sr. Strick – Eliot respondeu sem ao menos me fitar, pois seus olhos procuravam por entre as páginas do livro. De repente parou de folhear as páginas e me encarou fixamente diante da minha pergunta:
- Como então como chegou aqui?
- Eu não entrei pela sua porta Sr. Strick, e não subi as escadas, eu apenas apareci nesta sala.
- Apareceu? Como apareceu?
- Bom! Não existe uma maneira fácil de dizer isto Sr. Strick, e antes de lhe dizer as próximas palavras, eu quero lhe assegurar que não sou louco embora tenha certeza que assim o Sr. me considerará.
- O que está havendo? – Subitamente me coloquei de pé pois a aflição crescente impedia-me de ficar imóvel, sentia meu coração acelerado enquanto observava a calma com que o misterioso visitante continuava a falar.
- Sr. Strick permita-me esclarece-lo lhe fazendo uma pergunta: O Sr. acredita em anjos?
Durante alguns segundos o ambiente foi tomado de um silêncio ameaçador. Permaneci mudo diante da natureza da indagação de Eliot Vandrabe.
- O Sr. me ouviu? Me responda! – folheou mais algumas páginas do livro até encontrar a página que procurava, e com a caneta na mão prossegiu fazendo algumas anotações – Por que será que vocês temem os assuntos de ordem superior? – e voltou a me encarar esperando uma resposta que não veio.
- Não tenha vergonha, esta reação é natural, sempre as observo quando me revelo para as pessoas,... eu sou um emissário dos ares, um anjo como muitos de vocês preferem me chamar.
- Está me dizendo que você é um anjo?
- Sim, e antes que comece a me questionar permita-me provar a veracidade de minhas palavras.
Sentei-me novamente na cadeira e observei aquele homem começar a ler a página do livro de capa dura que segurava nas mãos. Depois de algumas frases ditas, me surpreendi ao perceber que escutava o relato da minha própria vida, com acontecimentos marcantes desde minha infância, incluindo detalhes secretos apenas de meu conhecimento. As descrições minuciosas e precisas de eventos marcantes da minha existência, aumentavam meus temores acerca das palavras de Eliot Vandrabe, e me senti perdido numa confusão de questionamentos que me deixaram a mercê das mais inacreditáveis considerações.
Assim que terminou a leitura daquele resumo acerca de minha pessoa encarou-me com o semblante sério dizendo:
- Tomei conhecimento de que a população local me denominou O Emissário da lua crescente,... ao longo da história já recebi muitos nomes, mas acho que este soa como o mais ameaçador. – dizendo isto fechou o livro mantendo a caneta na página que havia lido.
- O que você fez com os três ex-desaparecidos?
- Eles fazem parte de um grupo de pessoas escolhidas para participar de uma experiência, um grupo do qual o Sr. faz parte Sr. Strik.
- Que experiência?
- Eu vou lhe contar, mas antes permita-me resumir algumas informações acerca do meu trabalho.
- Prossiga.
- Obrigado pela compreensão, imagino o quanto incomum já lhe parece esta conversa Sr. Strick, mas eu lhe asseguro mais uma vez que todas as minhas palavras são verdadeiras; eu vou tentar lhe explicar de uma maneira clara – e dizendo isto ajeitou o livro sobre a perna, observou o relógio na parede e continuou – e vou tentar ser breve, tenho outra visita ainda esta noite, o que certamente me impedirá de responder-lhe todas as perguntas.
Permaneci em silêncio ainda confuso pelas inacreditáveis palavras daquele estranho, cheguei a considerá-lo realmente maluco, mas diante das revelações pessoais de minha vida que acabara de escutar Eliot Vandrabe relatar, não havia como negar-lhe uma certa credibilidade que me era incômoda; além disso pude perceber que aquele homem estava armado, e mesmo temendo aquele momento, a ousadia superou qualquer precaução de minha conduta, me levando a indagá-lo acerca do assustador objeto que trazia preso na cintura:
- Se é um anjo porque carrega o punhal?
- Proteção Sr. Strick,..apenas proteção.
- Proteção do que?
- Daqueles que não acreditaram em mim, e pensaram que eu era um criminoso, ou um maluco. Acredite, já tive que me defender em certas ocasiões; aqui no seu mundo me comporto como um ser humano comum, sujeito aos mesmos perigos que vocês. Exceto quando apareço para meus anfitriões como o fiz há alguns minutos atrás neste quarto. Nestas ocasiões me é permitido utilizar os meios naturais de aparecimento.
- Desculpe Sr Eliot, realmente não consigo acreditar em tuas palavras.
- Eu sei, e confesso que isto é decepcionante no meu ofício, ainda não possuo o poder de persuasão que gostaria, quase sempre acontece desta forma, e assim não consigo acalmar as pessoas que são escolhidas.
- Me diga de uma vez! escolhidas pra que? estive lendo os jornais e já sei que aquelas pessoas desapareceram por uma semana.
- Exatamente
- Aonde as levou?
- Não as levei a lugar algum Sr. Strick, na verdade elas permaneceram em casa o tempo todo, duvido que tiveram coragem para atravessar os portões.
- Chega deste jogo!! – gritei de maneira explosiva e enérgica denunciando o estado de temor em que me encontrava. Minhas palavras fizeram que Eliot Vandrabe se levantasse, levando a mão a cintura e segurando o punhal ainda preso a seu corpo, me fazendo a revelação mais absurda que já ouvira:
- Elas se tornaram invisíveis!
- Invisíveis??
- Sim, estavam lá o tempo todo, mas não podiam ser vistas, nem ouvidas, não conseguiram nenhuma forma de comunicação com este mundo durante uma semana.
- Que tipo de maluco é você?
- Não sou maluco e minhas palavras são verdadeiras. Pense nas notícias que leu há poucos minutos. Sabe porque aquelas três outras pessoas estão incomunicáveis Sr. Strick?
Permaneci de pé em silêncio observando fixamente Eliot Vandrabe gesticular com as mãos enquanto prosseguia:
- Porque elas disseram a verdade, disseram que estavam nas suas respectivas casas mas estavam invisíveis e impossibilitadas de qualquer forma de contato, pense Sr. Strick! o senhor acreditaria numa história destas? Certamente não!, se afirmasse estas palavras seria taxado de louco e submetido a algum tratamento psicológico, exatamente como está acontecendo com os ex-desaparecidos
- Eu quero que se retire de minha casa agora!
- Eu já vou, apenas mais uma informação, meu intuito aqui é de ajudá-lo, de tentar avisa-lo antecipadamente do que acontecerá no sentido de amenizar seu trauma, porque dentro de alguns minutos vai experimentar uma sensação assustadora de solidão, estará perto das pessoas e não será visto, falará o quanto quiser e não será escutado, o Sr. entendeu?
- Dentro de alguns minutos?!
- Sim, assim que eu desaparecer de sua frente Sr. Strick, o que acontecerá em três minutos.
- Vou me tornar invisível e incomunicável em três minutos?
- Sim,...escute, eu sei que está me achando maluco, e esta história absurda, mas antes de partir tenho apenas um último pedido, talvez se convença de minhas palavras com isto. – Eliot Vandrabe colocou a mão esquerda no pasta e retirou do interior uma pequena máquina fotográfica. – Me permita fotografá-lo depois que o Sr. tiver desaparecido, e quando revelar estas fotos daqui há uma semana então se lembrará de minhas palavras.
Dizendo isto Eliot Vandrabe afastou-se alguns passos ficando bem próximo a parede, e enquadrou uma imagem parcial do escritório por trás das lentes daquela máquina posicionada bem a frente de minha pessoa. Permaneci sentado na velha e desbotada cadeira, afastada um pouco da mesa, observando aquele estranho que focava a máquina em minha direção. A minha frente e sobre a mesa uma máquina de escrever e um aparelho grande de rádio ocupavam quase todo o espaço; sobre o rádio o telefone negro antigo que já não funcionava tão bem amontoava-se com outros pequenos objetos. No canto da mesa havia alguns livros e outro porta retratos com a foto de uma menina trajando um vestido branco, e ao fundo da imagem um armário baixo contendo mais livros e catálogos que havia adquirido nas minhas últimas viagens.
Quando o relógio da parede marcava exatas 23:58hs daquela quinta-feira desapareci dentro de meu escritório. Passaram-se alguns minutos até que Eliot Vandrabe tirasse uma foto de mim antes de sumir diante de meus olhos numa visão inexplicável. Jamais esquecerei sua imagem imóvel de pé, encostado a parede e manuseando a pequena máquina fotográfica, enquanto o observava sentado na cadeira e apoiado com o braço na mesa. Uma semana depois quando revelei a fotografia espantosamente constatei que de fato minha imagem não aparecia na foto, mesmo afirmando para todos que estava sentado naquela cadeira no preciso instante em que Eliot Vandrabe registrou a cena. Afinal uma semana já havia decorrido desde sua visita ao meu escritório, e eu voltara a aparecer conforme havia acontecido com as outras pessoas visitadas pelo Emissário da lua crescente. Tomei a liberdade de publicar no início de meu relato a foto tirada por Eliot Vandrabe naquela noite, e asseguro a todos que tomarem conhecimento desta história, que estou bem ali sentado na cadeira. Quanto ao que aconteceu comigo durante o tempo em que permaneci desaparecido, e mesmo depois do meu retorno, desculpo-me diante do leitor e reservo-me o direito de findar meu relato, que talvez já tenha se tornado cansativo, e por demasiado extenso.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O ESPIÃO DO LAGO BAIKAL

Na vastidão do planalto siberiano, meus olhos observavam um ponto negro e longínquo mover-se no horizonte branco, que se fundia com o céu prenunciando mais uma noite de rigoroso inverno para os moradores de Irkutsk. Distante alguns minutos da cidade, sob o alto de um penhasco eu podia observar o lago Baikal, misterioso elemento que dominava aquela geografia fria e encantadora. Meus olhos detiveram-se por trás do binóculo enquanto via aquele pequeno ponto atravessar completamente o lago congelado, riscando o chão de gelo numa linha visível que serpenteava de uma extremidade a outra do lago, rumando em minha direção. O silêncio do inverno foi cortado pelo ruído distante, mas reconhecível dos latidos dos cães que puxavam o trenó; incansáveis ajudantes, ali na imensidão daquele lago de gelo, imersos na grandiosa e fria solidão daquela paisagem, eu podia vislumbrar a silhueta disforme da matilha que arrancava contra a neve puxando uma imensa pilha de mantimentos e bagagens, juntamente com o condutor envolto em um grosso casaco que lhe cobria todo o corpo. As lâminas do trenó salpicavam estilhaços de gelo cortando o piso que parecia um espelho natural a refletir o céu sob minha cabeça.
Observei mais uma vez fixamente através das lentes, e notei que o condutor parou o trenó sob o chão frio e escorregadio do lago. Os cães se ajuntaram num único corpo numa tentativa de amenizar o vento congelante da Sibéria que implacavelmente os açoitava. Abriu um dos sacos de mantimento e retirou um rifle de caça, apontando em minha direção dando-me tempo apenas para me abaixar por trás de um rochedo. O disparo da arma causou um estampido repetitivo que ecoou na vastidão serene daquela natureza, e percebi que a bala passou a poucos metros de meu corpo, demonstrando a habilidade daquele exímio atirador, cujo disparo havia sido realizado de tão longa distância.
- Ele nos descobriu Yuri!!!...ele nos descobriu!!... – meu agitado parceiro falava apressadamente puxando-me para trás do rochedo... – vamos embora!! Yuri!! Vamos embora!!...
Desvencilhei-me de suas mãos e ordenei-lhe que ficasse calado, afirmando que jamais abandonaria meu posto enquanto não cumprisse a missão que me fora designada pelo general do exército soviético: interceptar um espião alemão que havia caído prisioneiro dos russos durante a batalha de Stalingrado, mas que havia conseguido escapar de um campo de prisioneiros ao norte de Bratsk, vindo parar próximo a Irkutsk, minha cidade natal.
- Tolo!.. como foi que você se tornou tenente Andrei?... acredita mesmo que não previ isto? Observe e aprenda seu covarde! Saiba que não preciso nem de minha arma para prender este homem, espere aqui!. – dizendo isto entregou o fuzil para o tenente e começou a descer a trilha do penhasco que o levaria diretamente para o lago.
O medroso oficial assumiu o lugar de Yuri e observou cuidadosamente através do binóculo em direção ao lago. Então pode distinguir que o condutor do trenó, agora mais próximo, havia parado novamente colocando a sua arma na superfície branca do lago, e permanecendo de pé próximo aos cães, ao lado de uma bandeira amarela fincada no chão de gelo. Passaram-se vinte minutos até reconhecer a figura do capitão Yuri aproximando-se do espião e carregando o que parecia ser uma corda; parou a uma distância de dez metros de seu inimigo alemão e arremessou-lhe uma das extremidades da corda. Mais alguns minutos e o espião foi preso pelo capitão, que olhou na direção do tenente acenando-o ao longe com um sorriso de satisfação no rosto.
Quatro horas depois o tenente Andrei dividia um copo de vodka com o capitão Yuri, num dos refúgios para o soldados russos, e depois do primeiro gole, não conseguiu conter a pergunta inevitável:
- Capitão, como fez aquilo? Como conseguiu desarmar e prender o espião alemão?
Yuri retirou do casaco um pedaço de papel dobrado e entregou para o tenente dizendo-lhe:
- Coloquei este bilhete na bandeira amarela que o espião encontrou – estendeu a mão protegida por uma luva e entregou o bilhete para o tenente que o desdobrou lendo as seguintes palavras:
Está pisando no ponto mais frágil do lago, se dispararmos nossas armas o piso de gelo se romperá e será engolido pelas águas congelantes do Baikal que o matarão em menos de um minuto. Se tentar fugir disparo minha arma e lhe asseguro que não conseguirá dar mais que dois passos antes que submerja no lago. Coloque tua arma no chão, afaste-se e aguarde-me que estou indo ao teu encontro”.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

AQUELA NOITE DE INVERNO EM EDIMBURGO

Nunca vou me esquecer do dia em que recebi Eduard Frank Albiern na porta de minha casa. O vento cortante da noite aliava-se ao negro de um céu sem estrelas, cuja lua encoberta por uma espessa névoa recusava-se a iluminar nossas faces. Ali postado na porta de casa, enquanto os olhares de dentro fitavam-no com um certo temor e curiosidade, vislumbrei a imagem de um homem que carregava uma pequena bolsa de couro nas costas. O semblante cansado e sujo mal podia ser distinguido devido à grossa barba que lhe encobria parcialmente o rosto; mas os olhos escuros revelavam cansaço e tristeza na expressão riscada da pele, que carregaria as marcas de sua vida para o resto de seus dias. Trajando um casaco preto sujo de terra, e uma calça marrom rasgada no joelho esquerdo, era impossível não sentir o odor do andarilho que há dias não tomava banho. Meu pai, um homem alto e discreto de feições sérias, que vestia uma calça de linho combinado com um colete preto, que se ajustava ao seu corpo deixando-o extremamente elegante, abservava à porta; então quebrou o silêncio diante da assustadora visão me tranquilizando:
- Tudo bem Erik!, esse homem é meu convidado...tudo bem filho!,...deixe-o entrar... -voltou a colocar o cigarro na boca.
Assenti com a cabeça e dei passagem para o homem que adentrou em casa, provocando com as botas um ruído no piso de madeira. O silêncio pairou sobre o ambiente e foi cortado pelas palavras de boas vindas de meu pai. Virei-me para trás e pude contemplar a expressão de espanto que se estampava na face de minha mãe, cujos olhares severos e recriminadores já recaíam sobre a atitude de meu pai, que conduzia o misterioso personagem pelo corredor até o quarto de banhos, entregando-lhe uma toalha e algumas peças de roupas à porta do aposento.
Vinte minutos depois estávamos todos a mesa de jantar. Uma mesa retangular dominava o centro da sala, meu pai levantou-se para remexer a lareira atiçando o fogo e colocando mais alguns tocos de madeira. Meu irmão permanecia imóvel com o olhar cabisbaixo, motivado pela sua infantil curiosidade atrevia-se a fitar Eduard Frank nos olhos por breves instantes, para logo em seguida retorná-los para o seu prato. Sentado bem a minha frente observava o homem que adentrara a minha casa, agora vestindo um casaco azul escuro sob uma camisa branca, além de uma calça preta amarrada a cintura com um cordão, e com o rosto barbeado; adquirira um aspecto agradável. Minha mãe colocou um cesto com diversos tipos de pães no centro da mesa, coberta com uma toalha manchada de vinho e de café, enquanto meu pai de volta a seu lugar, virava um garrafão de rum sobre o copo do andarilho enchendo-o quase até a boca, e depois, servindo-se igualmente disse:
- Beba isso meu amigo, neste frio aqui desta terra, rum é uma das poucas coisas ainda capaz de nos aquecer – o homem estendeu a mão e puxou o copo para perto de si bebendo quase todo o rum em apenas dois goles.

Naquela noite o vento gélido teimava em atravessar as pequenas frestas das janelas e portas e tocar-nos as faces, teimava em ameaçar as chamas amareladas das velas, que projetavam nas paredes sombras dançarinas a nos ameaçar com o prenúncio de uma possível e iminente escuridão. Sentado ao lado de meu irmão, observava o movimento das luzes quase se apagando, ou retornando mais intensas e iluminando misteriosamente a face de Eduard Frank Albiern. Tive a impressão de que por alguns segundos, era observado pelos olhos daquele homem enquanto as sombras cobriam-lhe o rosto. De repente parou sua refeição, seus olhos percorreram as paredes onde estavam dois quadros que foram adquiridos a pedido de minha mãe, entusiasta admiradora da arte, e detiveram-se num sabre prateado que pertencia a meu pai; tal objeto que agora destinava-se a decorar as paredes juntamente com os quadros, o acompanhara em seu trabalho durante onze anos em que servira com soldado da guarda na cidade de Edimburgo, antes de tornar-se agricultor. Quando minha mãe trouxe uma grande panela de sopa a mesa, o cheiro dos temperos invadiu o ambiente, e depois de nos servir, finalmente escutamos meu pai relatar que conhecera Eduard Frank Albiern há doze anos, e que durante quatro anos haviam defendido juntos as fronteiras da cidade de Edimburgo, dos levantes populares como soldados da guarda; depois disso Eduard fora transferido junto com um grupo de soldados, para salvaguardar o porto de outra cidade sob ataque de piratas, e assim nunca mais haviam se encontrado, até o dia em que caminhando pelo centro de Edimburgo, ao passar por trás de uma catedral meu pai ouvira uma voz chamando por seu nome nos fundos da igreja. Ao se aproximar reconheceu imediatamente o amigo e soldado, apesar do aspecto abandonado e assustador que o acompanhava pelas ruas da cidade. Comovido pelo estado do amigo, recomendou-lhe que fosse para sua casa dando-lhe toda a informação acerca do endereço de sua propriedade, e assim Eduard Frank Akbiern viera bater em nossa porta naquela noite.
Ouvíamos o ruído do vento açoitando as árvores, quando uma fina chuva começou a cair sobre nossa casa. Ainda na mesa de jantar saboreávamos um chá, enquanto meu pai e seu convidado haviam retornado aos copos de rum. Minha mãe havia se retirado para ler um livro na outra sala, enquanto eu juntamente com meu irmão, permanecia absorvido pela história dos dois soldados guardiões da cidade de Edimburgo, sedentos por desvendar outras aventuras do passado da vida de meu pai. Foi quando tomei a ousadia de indagar ao nosso convidado acerca de seu paradeiro, que o levara ao lastimável estado em que fora encontrado por meu pai, fazendo-lhe a seguinte pergunta:
- Sr. Eduard, porque o Sr. tornou-se um andarilho? – minha pergunta lançou sobre mim um olhar severo de meu pai, que foi interrompido pelas próprias palavras de Eduard Frank que gesticulando:
- Calma Marcus,...não recrimine o garoto...permita-me contar-lhe o motivo.
Meu pai descansou novamente na cadeira, bebendo mais um pouco do rum, e permaneceu em silêncio ouvindo as primeiras palavras daquele homem que nos relatou suas desventuras da seguinte forma:
- Depois de patrulhar o porto de Aberdeen por quatro anos, tornei-me um promissor homem de negócios na cidade, servindo a diversos homens de proeminência social no treinamento de suas guardas pessoais na arte do sabre. Consegui estabelecer-me num velho depósito, que o transformei num elegante local para aonde acorreram em pouco tempo muitos admiradores da esgrima. E assim conheci Claude Vincent Asper, jovem dotado de brilhante talento no manejo do sabre que alcançou rapidamente notoriedade no meio. Em pouco tempo consagrou-se como vencedor da maioria dos duelos travados, cujo reconhecimento de seu nome trouxe-lhe ascensão social juntamente com declínio moral...- interrompeu sua fala enquanto permanecíamos calados esperando pela continuação, bebeu mais um pouco do rum e novamente acalmou meu pai que o desobrigava de contar-me qualquer coisa, então Eduard Frank Albiern olhou-me fixamente e prosseguiu:
- Digo isto garoto porque quando as armas de um homem o levam a romper o limite da honra e da dignidade humana, então é sinal de que ele já não deve mais portá-las, e foi isso que ocorreu com Claude Vincent quando decidiu duelar com um amigo pessoal de minha estima chamado Orlando Prisquik; o motivo de suas desavenças com meu amigo foi o insulto proferido contra a noiva dele, a bela Emma, não vou proferir as palavras por uma questão de decoro, mas basta dizer que qualquer homem tomaria o que Claude Vincent disse naquele dia a Orlando Prisquik como um grave insulto contra sua mulher. No ímpeto de suas agressões, naquela mesma data marcaram a data do duelo para dali a cinco dias no campo de Pelak, uma planície ao norte de Edimburgo. Nos dias seguintes tentei de todas as formas dissuadir ambas as partes a desistirem do duelo, procurando outra saída para se escusarem do desentendimento, mas minhas tentativas foram em vão. Estava desesperado por saber antecipadamente que o desfecho do duelo vitimaria Orlando Prisquik deixando Emma inconsolável, diante da perspicácia e da rapidez imbatível de Claude Vincent no sabre. No dia do combate implorei a Claude Vincent que refletisse acerca de sua superioridade diante do seu rival, rogando-lhe que considerasse outra forma de duelo. Mas recebi o desdém de um ex-aprendiz que demonstrando a maior frieza montou no seu cavalo, e dirigiu-se ao campo de Pelak decidindo o duelo em menos de um minuto, com um único golpe que atravessou o pulmão de meu amigo.
Parados sobre a mesa permanecíamos com os olhos congelados nas palavras de Eduard Frank Albiern, que prosseguiu com a história.
- Quando cheguei ao campo de Pelak encontrei o corpo de meu amigo Orlando inerte no colo de Emma que chorava intensamente. E conversando com o juiz do duelo, um velho magro com um traje impecável e uma cartola elegante que nos observava, tomei conhecimento de que Claude Vincent já havia vitimado mais três homens, em covardes duelos que jamais deveriam ter acontecido devido à superioridade do meu ex-aprendiz na espada. Voltei para Edimburgo, fechei meu local de trabalho no dia seguinte e jurei que nunca mais ensinaria ninguém na arte da esgrima. Vendi os bens que possuía, reuni as poucas economias que guardei e as entreguei a Emma e as demais famílias desamparadas, cujos maridos haviam sido mortos pela lâmina do temido espadachim. Passaram-se algumas semanas e diante da escassez de recursos não pude permanecer na estalagem que me abrigava há três anos. Foi quando fui parar nas vielas de Edimburgo até encontrar seu pai.
O visitante inclinou-se em minha direção, e com a mão gesticulando no ar falou-me atentamente:
- Escute garoto!...lamento profundamente o dia em que decidi ensinar a arte da esgrima para estes homens, hoje convivo com o remorso de ter armado e ensinado homens como Claude Vincent a matar com a arte que aprenderam de mim, convivo com os fantasmas das vítimas de meu ex-aprendiz a me atormentarem de noite em meus sonhos,... posso não ter desferido o golpe garoto, mas também sou culpado destas tragédias...portanto!,...cuidado com o conhecimento que delega a outras pessoas...
Os braços de Eduard Frank puxaram a bolsa de couro para o seu coloazia, e sua mão esquerda reitrou do interior uma carta que colocou a minha frente. Meu pai levantou-se de sua cadeira, sentou ao meu lado, e juntos lemos as seguintes palavras numa bela caligrafia desenhada:
“Prezado Sr. Claude Vincent,...é sabido que o Sr. Eduard Frank Albiern, amigo pessoal de meu sincero respeito e admiração, tem tentado há alguns dias impedir este duelo, e considerando o fato de que todas as suas tentativas se revelaram infrutíferas, restando apenas um dia para o acontecimento, venho recorrer ao passado para tentar dissuadi-lo de tal feito, invocando para isso suas memórias da época dos duelos no estabelecimento de meu citado amigo; fazendo-lhe a revelação de que a minha morte seguramente resultará na tua, porque sou o único que detém o segredo para a cura de uma doença que o esta consumindo neste exato momento. O meu pai, alquimista reconhecido na cidade e médico pessoal de vossa família, revelou-me pessoalmente o mal que o alfige, por ocasião de um de nossos encontros que reunia um grupo de esgrimistas, e que se deu as vésperas de nosso duelo, entregando-me o medicamento que segundo suas próprias palavras lhe extirparia tal doença, na certeza de que tal revelação pudesse impedir este combate. Mas decidi adotar uma postura diferente reservando ao destino a sorte de minha vida, assim, se o duelo se realizar e se a minha morte sobrevier, o que certamente ocorrerá devido a sua superior habilidade que inevitavelmente sou obrigado a reconhecer, então você também morrerá, pois o secreto medicamento encontra-se nas mãos de um amigo de confiança que também detém uma cópia desta carta que esta lendo nesse momento, o qual lhe asseguro que jamais descobrirá, a despeito de todos os esforços que possa empreender para obter tal intento. Porém se demonstrar compaixão e desistir do duelo, então receberá na data marcada para o nosso enfrentamento, o medicamento que me foi confiado por meu pai para a cura de sua enfermidade. Decidi apostar em tua própria decisão Sr. Claude Vincent, assim se o pior me acontecer, tornar-se-á no teu próprio carrasco. Tomei a liberdade de enviar esta carta no dia do nosso duelo, portanto acredito que estará recebendo-a em dois dias, se tomou a decisão prudente desconsidere estas palavras e sigamos cada um com nossas vidas, mas se foi irredutível nos teus atos, desejo que estas palavras o incomodem até o teu último sopro de vida que certamente não tardará a chegar ,...Com respeito...Orlando Prisquik.”
Levantei os olhos em direção a Eduard Frank Albiern, e observei ele remexer a bolsa de couro novamente, retirando um pequeno frasco de vidro tampado com um rolha e contendo um líquido azul claro. Meu pai permanecia calado deixando escapar aquele sorriso discreto, de um ouvinte que certamente já tinha conhecimento do desfecho de tal narrativa, apenas aguardando para constatar minha reação. As palavras de Eduard Frank Albiern apenas confirmaram o que minha intuição já me dizia:
- Este é o remédio que Orlando Prisquik me entregou junto com a carta que você leu Erik. - disse-me Eduard Frank Albiern, colocando o frasco sob a mesa próximo a mim.
- Inacreditável....quer dizer que Claude Vincent está com os dias contados?...patife!...- não consegui esconder um ar de satisfação enquanto analisava nas mãos o pequeno vidro que continha o milagroso líquido.
- Isso mesmo garoto,...ironicamente meu estado de miséria veio auxiliar-me neste momento da vida, porque inúmeras vezes cruzei com Claude Vincent pelas ruas de Edimburgo, mas ele não me reconheceu devido a meu aspecto, certa vez chegou a me empurrar e agredir tratando-me como um verme insignificante. Nos dias que se seguiram pude observar que caminhava apressadamente e com o semblante preocupado, levava nas mãos um pedaço de papel parecido com este que vocês acabaram de ler.
Não havia palavras a dizer, pensando em toda a história que acabara de ouvir, era difícil acreditar que por trás de um maltrapilho que batera a minha porta, escondia-se um brilhante esgrimista consumido pelo arrependimento, mas que colocaria um fim as crueldades de Claude Vincent. Permaneci em silêncio, e ao me virar para o lado notei que meu irmão mais novo já havia sido retirado da mesa por minha mãe, certamente diante do teor da narrativa de Eduard Frank Albiern. Olhei para a parede a minha esquerda e pela primeira vez observei aquela arma demoradamente, o sabre prateado com detalhes entalhados reluzia com a luz de velas, o brilho corria sob a lâmina desfazendo-se, e subitamente reaparecia, com se clamasse para que a enxergasse além de um mero instrumento sem uso, que com o passar do tempo, havia se transformado num objeto de decoração na parede de tijolos daquela casa. Imaginei que histórias ocultariam uma arma, imaginei onde estaria Claude Vincent naquele momento.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O tempo me guardou você - Ivan lins

Depois das letras escritas, uma pausa para a letra musicada, e esta canção é para você meu amor,... amo você demais minha linda artista...

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A MISSÃO DO CAVALEIRO AHIB SIM

Os olhos de Terik Shamuk mal conseguiam permanecer abertos diante da tempestade de areia que invadia a sua tenda na planície de Fulkaham. Num passe de mágica o sol escaldante do deserto desapareceu no seu momento de ápice, dando espaço a uma espessa massa de pó amarelada que se elevava no horizonte, aproximando-se do acampamento numa nuvem de areia assustadora que avançava em direção ao pequeno grupo de tendas, devorando as gigantescas dunas e agitando os animais. Os ajudantes de serviços corriam em meio à escuridão de poeira carregando bagagens e suprimentos, algumas mulheres atravessavam de uma tenda para a outra carregando crianças de colo que choravam, outros criados colocavam vendas sobre os olhos dos cavalos que permaneciam presos, ou simplesmente soltavam-nos das cordas para que tentassem fugir diante da visão assustadora; ali na imensidão vazia e intimidadora daquela natureza eram engolidos pela areia, jogados pelo vento como frágeis bonecos insignificantes diante da força do deserto. Num rápido movimento Terik Shamuk colocou a cabeça pra fora da tenda, que lutava presa com as amarras ao solo para não ser arrancada pela fúria do vento. Seus olhos negros observaram a tempestade engolir o acampamento por completo, voltou para dentro e cobriu a pequena fresta de tecido que expunha sua visão e sua pele queimada e sulcada pelo clima árido do lugar, único espaço de seu corpo que ainda permanecia descoberto; e ali abraçado pela tempestade temida por gerações de nômades, envolto pela fantástica e assustadora tempestade do deserto que habitava as fábulas dos persas há muitos séculos, rogou a Alá que poupasse sua vida e de seus companheiros mercadores.
Vinte minutos se passaram com o som do vento cortante esbarrando no tecido da tenda e agitando-a com violência, mas quando a tempestade cessou, assim que saiu do seu interior, o mercador de especiarias constatou que grande parte de seus amigos havia desaparecido, algumas outras tendas não resistiram e foram levadas pelas rajadas, olhou a sua direita e aonde deveria haver um conjunto de cinco tendas que abrigavam mantimentos, agora havia somente uma enorme montanha de areia que sepultara vários caixotes dos mais diversos suprimentos que seguiam para a cidade do Cairo. Terik desenrolou o turbante descobrindo seu nariz e sua boca e pode ver ao longe, na fina nuvem de areia que se desfazia com a luz do sol a perfura-la em inúmeros pontos, rompendo aquela atmosfera escura que pairava sobre o acampamento, a silhueta de um cavaleiro que a rápidos trotes aproximava-se da sua tenda. O rastro discreto de areia que se levantava no cume de uma gigantesca duna foi ficando maior, e aos poucos o som dos rápidos galopes do cavalo árabe que afundavam na areia do solo tornou-se mais fortes até parar diante da pessoa de Terik Shamuk. Em cima do belo animal de respiração ofegante ainda assustado pela tempestade, um homem alto de expressão séria, com cabelos negros e grandes olhos semicerrados observou Terik e parte do acampamento que milagrosamente permanecia de pé. Trajava longos tecidos negros e na cintura carregava uma espada sarracena ricamente adornada com desenhos simbólicos. Voltou-se para Terik fitando-o nos olhos e perguntou-lhe:
- Procuro por Omar Yshtaham?...você o conhece?
- Sim,...eu o acompanhei durante a primeira etapa da viagem,...eu o acompanhei até o oásis de Fulkaham...e depois nos separamos...ele seguiu sozinho...
- Em que direção?...perdoe-me pela brevidade de minhas palavras que me impediram de apresentar-me,...meu nome é Ahib Sim, mensageiro enviado pela profetiza Eva, nobre mulher conhecida na corte de Sukramm; sigo numa missão específica que me foi designada por tal mulher...
O homem parecia apressado tentando controlar o animal arredio, e a luz do sol retornava com toda a intensidade revelando um cenário de desolação no acampamento. Terik estendeu seu braço para o norte apontando na direção tomada por Omar Yshtaham ao deixar o oásis de Fulkaham e lhe disse:
- Ele seguiu nesta direção,... mas não estava só,...eu me lemb,...
- Eu sei!...interrompeu-o subitamente o cavaleiro - ...a profetiza Eva predisse que ele estaria acompanhado por um soldado quando partisse de Fulkaham;...mais uma vez peço minhas desculpas pela ausência de informações mas não há tempo para mais palavras... - e dizendo isto virou seu animal com habilidade partindo em direção ao norte.
Terik o acompanhou com os olhos até o misterioso cavaleiro desaparecer por completo no horizonte engolido pelas montanhas de areia. Mais alguns minutos e o acampamento foi se reagrupando, os homens pareciam lutar contra o tempo na busca pelos sobreviventes desaparecidos, alguns se juntavam em pequenos grupos e cavavam desenfreadamente em vários pontos do solo na busca dos amigos e mantimentos que foram tragados pela areia. Caminhando rapidamente pelo acampamento Terik pode ver uma mãe que chorava por ainda não ter encontrado o filho. Finalmente adentrou numa tenda aonde um de seus amigos estava deitado no chão, sendo atendido pelo médico que fazia um curativo no seu braço esquerdo, atingido por uma pá jogada contra o seu corpo pelo forte vento.
A viagem que separava o acampamento de Terik Shamuk do oásis de Fulkaham durava aproximadamente uma hora. O cavaleiro atravessava solitário o solo dourado e homogêneo da imensidão do deserto, deixando um rastro que em poucos minutos era encoberto pela areia; como que se ali mesmo naquele instante o deserto quisesse condena-lo àquelas areias,...ao esquecimento... Finalmente parou seu cavalo no pico de uma grande montanha de areia e observando o horizonte, localizou uma pequena mancha verde que se destacava na imensidão amarela do deserto. Como um pequeno espaço estranho àquele ambiente, o oásis de Fulkaham resistira às guerras, ao tempo, e sobretudo ao deserto, único ponto de abastecimento para as diversas caravanas que o atravessavam, tornara-se na última fronteira, no último porto a oferecer alguma segurança para os homens que ousavam tal intento. A vegetação viva e espessa do oásis contrastava com a uniformidade do deserto, grandes árvores cercavam um espaço disputado pelos homens e animais, cujo centro era ocupado por um pequeno lago cristalino cravado no coração daquele lugar. Uma pequena multidão aglomerava-se em volta de um poço para obter água, lançando os baldes abaixo que retornavam puxados pelas cordas. Por trás de alguns arbustos um grupo de camelos descansavam deitados a sombra de algumas árvores, enquanto os viajantes os preparavam amarrando sacos e bagagens sobre o lombo dos animais. O cavaleiro saudou um homem baixo, moreno, com a grossa barba branca envelhecida pelo tempo e com um turbante sob a cabeça, carregava um balde com água para os cavalos, apresentou-se como sendo um tratador de animais e ofereceu-se
para cuidar de seu cavalo em troca de algumas moedas, trabalho que foi aceito imediatamente.
O cavaleiro depositou algumas moedas de prata nas mãos do tratador, e quando preparava-se para partir, o velho homem o segurou pelo braço estendendo-lhe a outra mão que continha um envelope lacrado com o selo Real da casa de Omar Yshtaham; o velho o olhou fixamente, esboçou um sorriso enquanto permanecia com o braço estendido em direção ao cavaleiro e lhe disse:
- Esta mensagem foi deixada por Omar Yshtaham para o cavaleiro Ahib Sim, ele me disse que um cavaleiro vestido de preto o procuraria em alguns dias aqui, e me incumbiu de entregar pessoalmente esta mensagem.
O cavaleiro apanhou a mensagem, quebrou o lacre com o selo real e desdobrou o papel empoeirado. Uma curta mensagem numa caligrafia árabe dizia: “Prezado Ahib Sim,...fiel cavaleiro da casa real de Sukramm,...Se estiver lendo esta mensagem então minhas suspeitas se confirmaram e já não estarei no oásis de Fulkaham. No entanto rogo-lhe que embora tenha sido designado pela profetiza Eva, nobre mulher da qual dedico todo respeito e admiração, para encontrar-me e trazer-me de volta ao meu reino, que agora mesmo desista de tal intento pois jamais o farei,...e peço que retorne ao seu reino e sinta-se desobrigado desta missão através de minhas palavras escritas neste papel; afirmo-lhe que tenho forte motivo pra empreender a minha fuga, e temo que sua insistência em achar-me o leve a tal revelação que me colocou neste estado, o deixando inevitavelmente no mesmo situação em que me encontro hoje,... Omar Yshtaham”.
Os olhos de Ahib Sim observaram ao longe e mais uma vez perderam-se nas areias do deserto, confusos, imersos nas palavras de alerta de Omar Yshtaham para que desistisse de sua missão. Sua mente o questionava acerca de qual seria este forte motivo que o impeliria a retroceder, seus pensamentos buscavam esta resposta ao mesmo tempo que aumentavam-lhe a curiosidade acerca do mistério. Mas sabia que a idéia de retornar ao seu reino sem ter cumprido sua missão era inadmissível, e o faria se sentir inútil e fracassado diante da profetiza Eva.
A noite derramou seu manto sobre as areias quentes, e algumas poucas luzes de velas nas tendas do acampamento rompiam aquela vastidão negra do silêncio árido do deserto. O cavaleiro permaneceu a noite toda dentro de uma das tendas absorvido por seus pensamentos, e várias vezes releu a mensagem que tinha em mãos deixada por Omar; pela manhã tomou a decisão.
O cavalo invadia o deserto rapidamente em direção ao rumo tomado por Omar Yshtaham. Inclinado sobre o animal o cavaleiro apenas pensava em descobrir o motivo da fuga de Omar, refletia sobre o seu desaparecimento sem deixar qualquer notícia despertando o temor na casa Real, mas mantinha sobretudo o seu propósito de traze-lo de volta.
Depois de uma hora de viagem, a imagem angustiante e imutável da imensidão amarela daquele lugar foi transformada quando um pequeno ponto escuro ao longe sobressaiu aos olhos do cavaleiro, ao se aproximar a figura disforme foi ficando cada vez mais nítida, até desvendar-se aos olhos daquele homem na imagem de uma tenda tendo uma bandeira bem alta ao seu lado. O cavalo se aproximou e parou quase na entrada, não havia qualquer ruído ou vestígio da presença de alguém. O cavaleiro desmontou e desembainhou a espada caminhando vagarosamente em direção ao véu que balançava com o vento, e que cobria parcialmente a entrada da tenda. Suas mãos empurraram o véu para o lado, e então pode ver que no interior daquele local havia apenas um tapete colorido com uma vasilha de água ao lado de uma bacia contendo algumas frutas. Sobre o tapete um outro papel lacrado com o selo Real chamou a atenção de Ahib Sim, descansou a espada que brilhava junto a cintura, aproximou-se cuidadosamente e inclinou-se para pegar o papel, quando o trouxe próximos aos olhos pode ler a seguinte mensagem: “Ao desventurado cavaleiro Ahib Sim”, sentou no tapete e mais uma vez desdobrou o papel, então seus olhos percorreram as seguintes linhas:
“Meu nobre cavaleiro Ahib Sim,...Lamento profundamente que não tenha atendido a minhas recomendações, pois asseguro-lhe que o fiz apenas para sua própria segurança e descanso, mesmo não tendo o destino o levado de volta ao seu reino, no que certamente foi o meu maior anseio desde o momento em que tomei conhecimento de sua partida na missão que lhe foi designada pela profetiza Eva, respeito tua decisão de tentar encontrar-me, o que imagino que jamais conseguirá, entendendo ao mesmo tempo que sua busca infrutífera não me da mais o direito de priva-lo da realidade dos acontecimentos que me levaram a tomar minha decisão de partir. Tal determinação de sua própria pessoa merece ao menos que o motivo lhe seja revelado, por mais terrível que se apresente. Apenas desde já lamento pelo mal que lhe causarei depois que terminar de ler esta mensagem.
A explicação para tudo o que aconteceu certamente é a mais absurda de todas as circunstâncias que cruzaram minha vida, mas não menos real por isso. Não vou entrar em detalhes sobre como descobri o que lerá nas próximas linhas, mas o motivo de minha partida foi descobrir que o meu mundo,... que o nosso mundo meu amigo,... não passa de uma alegoria, de um engano, de uma montagem, de um mundo irreal.... Isto mesmo!,... peço meu nobre cavaleiro que leia minhas palavras exatamente como estão escritas, porque eu lhe asseguro com toda a minha certeza,... com toda a minha convicção,... que todo o nosso mundo sequer existe no plano da realidade, jamais existiu!...Este deserto onde você encontra-se neste momento, a tempestade de areia, as caravanas, o oásis, Terik Shamuk, o velho tratador de animais, eu e você meu nobre cavaleiro,... não somos nada mais do que invenção,... nada mais do que fruto da criatividade de alguma pessoa que simplesmente inventou uma história, um fábula, da qual somos meros personagens. Neste exato momento algum leitor esta lendo nossa história, passando seus olhos sobre estas linhas, tão ávido quanto você estava para descobrir esta terrível revelação. Talvez agora entenda que minha fuga, meu desaparecimento é a forma que encontrei de rebelar-me contra esta situação de apatia, de sempre estar a disposição do desconhecido leitor para deleita-lo com minha inocente vida de personagem literário.
Lamento profundamente que tenha sido o portador de tal notícia, mas relembro-lhe que foi sua própria decisão de encontrar a resposta que o afligia, quando não atendeu a minha recomendação, que o trouxe a esta mensagem. Imagino como está se sentindo neste exato momento meu nobre cavaleiro, e diante de tal revelação assombrosa não tenho mais palavras....com pesar,...Omar Yshtaham..."

Durante uma hora não houve movimento na tenda, sentado no tapete o cavaleiro refletia sobre cada palavra escrita por Omar. As vezes desprendia-se daquelas linhas e mantinha um olhar perdido, confuso, que atravessava o véu de entrada da tenda, e fitava o cavalo imóvel do lado de fora. Finalmente levantou-se, atravessou a pequena passagem encoberta pelo tecido e retorno ao deserto solitário, percebeu então que a sua direita o céu parecia estar mais escuro, uma outra tempestade de areia aproximava-se, mas desta vez não sabia mais no que acreditar. Montou no cavalo e ainda pode ver ao longe um pequeno grupo de camelos transpostando bagagens, seus olhos puderam distinguir apenas duas pessoas, pareciam um casal de amantes, ali, naquele lugar esquecido fugindo do mundo. O homem e a mulher montados no mesmo cavalo iam adiante, ela abraçava-lhe fortemente pelas costas enquanto distanciavam-se, enquanto desapareciam como todas as certezas que habitavam-lhe a mente até o dia em que resolvera encontrar Omar Yshtaham,...Então virou seu cavalo em sentido contrário ao da tempestade que levantava-se ao norte e partiu para o seu reino, mal sabendo se ele realmente existia...

domingo, 15 de junho de 2008

O BECO DE STA. ALBA

De pé com os braços cruzados e trajando o mesmo uniforme escolar, Elias Clader, Felipe Tornadori, e Ricardo Manintim, o garoto mais temido do ginásio também conhecido como Ricardo "boxeador", apelido que lhe conferia uma certa imunidade em todo o Colégio, observavam-me na entrada do beco de Sta. Alba. Em seu pequeno mundo circunscrito ao espaço do maior colégio da cidade, aonde subjugava todos os demais garotos pela força e tornava-se certamente na amizade mais desejada, Ricardo tinha seus domínios ameaçados apenas pela figura dos professores e do Diretor Ernesto Laurentim Lofer apelidado de "general".
Lançando um olhar para trás quando já caminhava pelo sombrio beco iluminado apenas pelo brilho das estrelas, pude vislumbrar o vulto cada vez mais distante dos três garotos imóveis e atentos, que pareciam ansiar por um desfecho inesperado para deleitarem-se as custas de meu fracasso. Lembro-me que tinha 15 anos quando decidi entrar no beco de Sta. Alba para cumprir o desafio que me fora imposto pelo grupo de Ricardo "boxeador", ou melhor pelo próprio Ricardo, afinal este era o preço determinado para que qualquer garoto da cidade quisesse conhecer Ingrid, sua irmã, e a garota mais bonita do Colégio. Como ninguém questionava suas decisões, Ricardo adotara uma tática bem diferente do simples uso da força física para intimidar os pretendentes, colocando-os frente a frente com o lugar mais assustador da cidade e deliciando-se com seus temores: o beco de Sta Alba.
As histórias contadas pelas pessoas sobre a misteriosa moradora nunca vista por ninguém ao longo de anos, que habitava um pequeno quarto no final do beco deram uma notoriedade sombria ao pequeno e estreito corredor de aproximadamente 30 metros que dividia dois prédios antigos não muito altos. Nas paredes sem janelas, manchadas e desbotadas pelo tempo, os fios de varal cruzavam-se desordenadamente inúmeras vezes, unindo ambos os lados e revelando apenas algumas peças de roupas, toalhas, e lençóis pertencentes a mulher. Como uma rua indesejada por todos os moradores, cujo final revelava uma porta de madeira com uma pequena placa com a enigmática inicial "L.L.D.", até mesmo durante o dia a passagem permanecia vazia, servindo apenas de abrigo para três gatos que escondiam-se nos jornais e caixotes abandonados espalhados ao longo do corredor.
Naquela noite fria enquanto me aproximava da porta, desviando-me dos tecidos que balançavam freneticamente no varal agitados pelo forte vento, observando as sombras delineadas que como espectros adquiriam vida em súbitos movimentos nas paredes, para desaparecerem logo em seguida e reaparecerem sob outros desenhos disformes, notei que era acompanhado por um dos gatos que habitavam o beco. A poucos passos da porta e tão perto do objetivo imposto por Ricardo de desvendar o significado das iniciais "L.L.D." inscritas na placa, virei-me para trás e constatei que os três garotos, agora apenas uma pequena silhueta distante que fundia-se com a escuridão, ainda continuavam a observar-me sem expressar qualquer gesto, inertes e ansiosos pelo que eu faria. Quanto a isso nunca tive dúvidas; desde o momento em que aceitara o desafio eu já sabia que não haveriam planos ou táticas para desvendar o mistério, a não ser utilizando-me do único método viável de bater na porta da moradora e perguntar-lhe pessoalmente sobre as letras. Ali postado na porta, depois de percorrer todo o beco de Sta. Alba já não havia como desfazer o meu ato, os passos denunciavam alguém que aproximava-se rapidamente da porta pelo lado de dentro respondendo as minhas batidas, parecia correr. Finalmente a porta se abriu vagarosamente.
O rangido preguiçoso das dobradiças revelou-me a mão delicada de uma mulher, que puxou a porta desvendando aos meus olhos um corredor com lindos tapetes coloridos decorados; bem ao fundo pude identificar um conjunto de mesas e cadeiras bem antigas, ricas em detalhes entalhados na madeira ocre que brilhava com a iluminação suave de um grande lustre de cristal, cuja porta de entrada do recinto me permitia ver somente a ponta, dando um aspecto de beleza incomum no que me pareceu ser uma sala de visitas.
- Não gostaria de entrar?
Meus olhos acompanharam aquela voz jovem e tranquila de uma mulher de aparentemente 30 anos que se apresentou a minha frente, muito bem vestida, estendeu sua mão em minha direção dizendo:
- Muito prazer,...eu sou Liz.
Por alguns segundos permaneci mudo diante da imagem daquela linda mulher educada, até o gato que me acompanhava ficou paralisado quando o brilho do interior da casa escapou para o beco iluminando parte da parede suja deixando meus desafiadores distantes completamente atônitos bem na entrada da viela.
- Sim, obrigado,... meu nome é Hugo Hertiz - estendi a mão e cumprimentei aquela mulher de gestos graciosos que me absorvia toda a atenção, longos cabelos castanhos cacheados escorriam-lhe pela face destacando ainda mais seus olhos verdes, um sorriso discreto realçava as maçãs avermelhadas de seu rosto pela brisa gelada da noite que invadia aquela casa.
Arrumei o pequeno gorro preto na cabeça, virei-me para trás, e agora sentindo-me vitorioso diante do desafio que me fora imposto, despedi-me dos garotos parados na entrada do beco com um ligeiro aceno de mão, aproveitando-me do meu momento de superioridade e entrando na misteriosa casa. A porta fechou discretamente e a escuridão dominou novamente todo o beco.
Em poucos passos atravessei o corredor acompanhado por Liz, e pude observar que as paredes estavam decoradas com quadros retratando paisagens e pessoas, alguns pareciam tratar-se de retratos de família. Finalmente vislumbrei por completo a sala que da porta revelava-me apenas parte da mesa e do lustre de cristal. Olhando para cima parado na porta de entrada da sala, parecia ver uma fusão de tons amarelados refletidos nos inúmeros cristais que compunham o grande lustre que dominava o centro do teto daquele ambiente; a minha frente a mesa retangular e as cadeiras delicadamente entalhadas num trabalho manual admirável conferiam um tom nostálgico mas elegante aquela casa; ao fundo da mesa dois sofás e uma pequena mesinha de vidro preenchiam harmonicamente o restante do espaço da sala. Minha anfitriã apontou-me um dos sofás convidando-me a me sentar.
- Que prazer recebê-lo Hugo,... saiba que espero por uma visita há vinte e oito anos,... e finalmente recebo-o em minha casa.
Sua primeira observação me deixou confuso, então sentindo-me mais a vontade perguntei:
- Vinte e oito anos?... o que quer dizer Liz?- Já estava cansada de chegar a porta e abri-la para deparar-me sempre com o beco vazio,... ou quando muito, com pessoas correndo ao longe desesperadas,... mal ouvindo meus gritos para não correrem.
- Como?... nunca ninguém te visitou Liz?
- Não,... ou melhor,... tentaram em todos estes anos,... mas fugiram antes que eu chegasse a porta para avisá-los e me desculpasse em nome do mordomo da casa.
- Avisá-los do que? - comecei a sentir um certo receio de ter entrado de imediato na casa de Liz, a conversa entre nós estava começando a ficar assustadora, mas não o bastante para deter a minha curiosidade.
- Avisá-los para não temerem o mordomo, apesar da sua aparência eu lhe garanto que Livingtom é o melhor trabalhador que tenho aqui, talvez não seja muito bom no trato com as pessoas, embora tenha me jurado que seu tratamento extremamente cordial nunca foi o bastante para detê-las à porta por poucos segundos que fossem. Sei que parece estranho mas durante todos estes anos Livingtom sempre se antecipou a mim,... acredite Hugo! ele é muito rápido, e assim ele sempre abriu a porta mesmo quando eu tentava impedi-lo, pois quando eu olhava para a porta la estava ele educadamente postado para recepcionar meus visitantes.
- Até hoje?... o que ocorreu então Liz?...o que fez com que você atendesse a porta?
- Eu não sei meu querido,... eu apenas ouvi suas batidas na porta já conformada de que Livingtom estaria lá para abri-la, então eu nem me apressei,... mas imagine minha surpresa quando cheguei ao corredor e vi que ele não estava a porta!... aí então corri enquanto você batia e finalmente consegui abri-la.
- E onde ele está agora?
- Está trancado no seu quarto - o semblante de Liz foi tomado de uma preocupação que em poucos minutos deu lugar a um choro, lágrimas começavam a escorrer-lhe pela face; estendeu a mão e apanhou o lenço de seda que eu lhe ofereci - temo que algo muito ruim tenha acontecido a Livingtom,... imagine Hugo!... pela primeira vez em vinte e oito anos ele não atendeu a porta,... algo do qual ele não abriria a mão por nada neste mundo!... quantas vezes eu briguei com ele, quantas vezes eu lhe proibi de abrir a porta, até coisas piores me passaram pela mente para impedi-lo!
Comecei a pensar na figura deste misterioso mordomo formando a imagem em meu inconsciente de uma pessoa vitimada talvez por alguma deformidade física, algo que o tornara assustador para os visitantes que haviam batido na porta, o que só aumentava o mistério e meu medo acerca do desconhecido Livingtom.
- Mas porque corriam dele Liz?... pelo que você me contou até agora imagino que este pobre homem deve ser muito assustador...
- Desculpe Hugo, mas eu não vou responder mais nada,... eu ainda não o vi hoje,... então porque não me acompanha até o quarto dele e descobrimos juntos o que ocorreu?... acho que não tenho coragem de ir lá sozinha,... mas não quero obrigá-lo a prosseguir e respeitarei sua decisão se quiser partir... - novamente irrompeu em choros preparando-se para levantar da cadeira.
Por alguns segundos eu fiquei completamente perdido na minha decisão, lembrei-me de minha mãe e suas broncas me alertando acerca do envolvimento com estranhos, imaginei ela naquele exato momento com o olhar severo me recriminando por ter apenas entrado na casa de Liz, e certamente me aplicando uma surra quando chegasse em casa devido ao meu atrevimento. Mas ela não estava lá naquele momento, e minha comoção pela mulher que transmitia uma certa franqueza em sua voz, me convenceram a subir para o quarto do mordomo.
Acompanhei Liz por uma escada que corria junto a parede, e após alguns degraus, deparei-me com outro corredor escuro no piso superior da casa. Apenas duas portas opostas em cada lado do corredor completavam o espaço cujas paredes agora já não apresentavam nenhuma decoração.
- Venha comigo Hugo - dizendo isto a misteriosa mulher dirigiu-se para a minha esquerda até o final do corredor, parando e encostando-se rente a porta colando seu ouvido na madeira para tentar escutar algum sinal do mordomo.
Parado ao seu lado eu olhava acima contemplando seu semblante de preocupação, diante da omissão de qualquer ruído proveniente do lado de dentro da porta. Com leves batidas na porta Liz rompeu o silêncio do ambiente:
- Livingtom!!... você está me ouvindo? - sua mão batia de novo na porta.
- Livingotm!...por favor!... - sem êxito a mulher forçava a maçaneta da porta que estava trancada do lado de dentro.
- É você Srta. Liz?... uma voz fraca e melancólica, mas que me era familiar escapou de dentro do quarto.Pela primeira vez pude ouvir a voz de Livingtom, o tom rouco e cansado não me deixavam dúvidas de que se tratava de alguém beirando os seus 80 anos.
- Livingtom, o que aconteceu?
- Há uma chave debaixo do tapete Srta. Liz
Abaixei-me imediatamente atendendo ao pedido de Liz, e após levantar o tapete marrom colocado bem a frente da porta do quarto, deparei-me com uma chave prateada presa a um cordão. Entreguei para minha acompanhante que destrancou a porta rapidamente e abrindo-a revelou-me uma visão que eu jamais esqueceria pelo resto de minha vida.
Deitado na cama com um aspecto cansado e doente, lá estava o "general". Com seu olhar profundo e seco observava-me em silêncio; seu semblante frio e circunspecto somado a pele pálida destacavam-lhe as rugas que cortavam seu rosto e passavam-me uma aparência desagradável. Reconheci aquele homem que permaneceu em silêncio me observando enquanto Liz arrumava o cobertor sobre seu corpo; tão autoritário aquele homem que conhecia, tão inflexível em seu mundo exterior mas ali naquela cama o contemplava tão frágil, tão entregue ao cuidado alheio, algo que ao menos para mim não combinava com aquela sua imagem dominadora que já conhecia, foi quando me veio a mente a seguinte indagação trazendo-me novamente a realidade:
- Liz, você me disse que ele se chama Livingtom?
- Sim Hugo...porque? - virou-se para mim ficando de costas para a cama.
- Eu conheço este homem Liz, mas ele chama-se Ernesto Laurentim Lofer e é o diretor do maior Colégio da cidade.
- Certamente Alfredo, mas permita-me explicar um detalhe - dizendo isto voltou-se novamente para o homem deitado que tossia, serviu-lhe uma xícara de chá quente que repousava sobre o criado, com cuidado arrumou o seu leito falando-lhe no ouvido algumas palavras que não pude distinguir, e convidou-me a descer novamente até a sala.
De volta a sala e sentado no mesmo sofá, percebi que Liz demorava para me explicar aquela situação confusa, finalmente tomou coragem, inclinando-se na minha direção, e bem próxima olhando-me fixamente nos olhos disse:
- Hugo, eu vou lhe contar um segredo, e o que vou lhe contar vai parecer estranho, vai ser difícil de acreditar, mas eu quero que acredite porque eu lhe asseguro que tudo o que disser é verdade, não tenha medo.
Naquele instante minha respiração diminuiu, e todo o meu ser foi envolvido pelo efeito daquelas palavras que aguçaram minha curiosidade.
- Hugo, esta não é uma casa comum, é uma casa diferente de todas as demais.
- Ainda não entendi Liz, eu percebi que ela é um pouco diferente de todas que eu conheço com todos estes objetos de decoração, coisas antigas...
- Pode até ser Hugo, mas não me refiro a isto, estou dizendo que a casa detém um poder mágico e transformador sobre as pessoas que entram aqui.Minhas palavras cessaram, e observei Liz paralisado pela história enquanto prosseguia:
- Hugo, qualquer pessoa que entre nesta casa, torna-se aqui dentro o oposto é lá fora, ocorrendo uma espécie de recriação da pessoa com uma inversão dos traços de sua personalidade.
- Não entendi nada...
- Tudo bem,...eu vou tentar explicar,...vamos tomar de exemplo o Livingtom.
- Você está dizendo o Ernesto "general" Liz?
- Sim,.. quando as pessoas entram aqui elas adquirem outro nome.
- E como você sabe os nomes?- Eu apenas pergunto e elas me dizem, foi assim com Livingtom,...quer dizer... com o "general", me parece que é assim que ele é conhecido lá fora.
- Isso mesmo Liz, todos o conhecem assim.
- Para você entender a magia da casa, me responde a seguinte pergunta: Como o "general" é visto lá fora Hugo? Como é o comportamento deste homem? Como é o jeito dele?
- Quase todo mundo acha ele um homem dominador, autoritário, o tipo que assusta e que quer se impor usando inclusive a força se for preciso.
- Viu,...eu já imaginava isto,... agora me responde outra pergunta Alfredo: sabe como é o jeito dele aqui na casa? Ao menos percebeu qual a função dele aqui?
- Ele é um mordomo Liz, até agora acho isto muito estranho, não consigo imaginar este homem assim.
- É porque aqui ele não domina e nem age autoritariamente Hugo, aqui ele serve, é um mordomo que atende a porta, entendeu agora?
- Estou começando a entender Liz, mas e quanto a mim? o que você vê de diferente agora? você vê alguma característica que eu não apresentava lá fora?
- Não Hugo, eu não vejo nada, ainda não lhe contei, as crianças como você são imunes a magia da casa.
- Imunes?
- Sim, quer dizer que não são atingidas pelo efeito, e isto porque as crianças são naturalmente expontâneas e não dissimulam como os adultos.
- Dissimulam?
- Sim Hugo, dissimulam quer dizer escondem algo, ocultam.
Continuamos a dialogar naquela sala, enquanto permanecia atento as palavras daquela mulher ilustrando-me alguns casos que resolvera contar-me, e assim fiquei sabendo de pessoas que haviam entrado naquele recinto, cidadãos anônimos ou personagens notórios daquela cidade que tinham seu comportamente e personalidade radicalmente transformados, invertidos; os soberbos tornavam-se humildes, os pacatos tornavam-se agressivos, os reflexivos transformavam-se em pessoas impulsivas e passionais, enfim, qualquer traço da personalidade de qualquer indivíduo que adentrasse aquele recinto, exceto uma criança, era transformado no seu exato oposto pela magia da casa, como se ali naquele lugar qualquer indivíduo estivesse parado diante de um "espelho as avessas" que lhe revelaria sua outra face.
A intrigante conversa com Liz me deixou totalmente alheio ao tempo, e somente me dei conta do adiantado da hora quando o relógio dourado de parede que destacava-se naquela sala, despertou-me com longas badaladas indicando que já eram 22:00hs. Não tive tempo de prosseguir com a conversa embora desejasse fazê-lo intensamente, e enquanto me dirigia para a porta de entrada atravessando o longo corredor ricamente decorado, não pude deixar de fazer as três últimas perguntas daquela noite:
- Liz, por que você nunca saiu da casa?
Por alguns breves instante aquela linda mulher me olhou, esboçou um sorriso discreto e respondeu-me com muita tranquilidade:
- Eu acho que pelo fato de que certamente eu não vou gostar de minha personalidade no seu mundo Hugo,...fico pensando, se aqui eu sou desta forma que você me vê e da qual eu gosto,... como seria esta minha personalidade lá fora e revelada de maneira oposta?... talvez não seja agradável,... talvez carregue algum traço reprovável que aqui na casã não se manifeste, mas se atravessasse esta porta então ele seria inevitavelment exposto.
As mãos de Liz tocaram na maçaneta da porta e quando preparava-se para abri-la questionei-a novamente:
- Porque as pessoas fogem daqui mesmo não conhecendo a casa?...Por que as pessoas fogem só pelo fato de verem o mordomo abrir a porta?
- Porque o mordomo a que você se refere é uma pessoa conhecida desta cidade, sobretudo no que se refere a sua personalidade, e assim, qualquer um que se depare com alguém cuja imagem formada no imaginário de sua sociedade, é exatamente o oposto do que ele vê aqui quando a porta se abre, sofre inevitavelmente um estranhamento Hugo, toma um susto, uma reação de incompreensão que causa temor e os afasta da casa; pelo menos é o que tem ocorrido há vinte e oito anos até você aparecer hoje por aqui.
Fiquei em silêncio; passei pela porta pensando nas palavras daquela mulher, enquanto novamente sentia a brisa gelada da noite que atravessava o beco e invadia o recinto. Numa última olhada para Liz agradeci a cordialidade de me receber, e a coragem de me confiar tão fantástico segredo, e lhe fiz a última pergunta daquele nosso encontro apontando com o braço esquerdo para a placa localizada bem acima da porta:
- O que significam as iniciais "L.L.D."?
- São iniciais de três palavras Hugo: "Liberta-te, livra-te e descobre-te" - e tendo dito isto Liz me olhou por mais alguns instantes, enquanto era envolvido pela escuridão cada vez mais intensa do beco que retornava a medida que a porta fechava-se, transformando aquele clarão que escapava do interior da casa num facho de luz cada vez mais estreito que cortava a parede suja do lugar, até esvair-se engolido pela noite.
Comecei a caminhar para a entrada do beco procurando pelo grupo de Ricardo "boxeador", já imaginando a recompensa que havia conquistado com tamanha ousadia de minha parte. Meus passos apressaram-se enquanto me aproximava da rua procurando pelo vulto dos garotos em meio aquele lugar abandonado; então já distante, parado bem na entrada da viela no exato lugar aonde meus desafiadores haviam me observado há poucos minutos, percebi que haviam partido. Dei uma última olhada para trás e pude ver a porta da casa de Liz, agora uma pequena porta, distante, quase que imperceptível, absorvida pelo mistério e pelas sombras daquele beco, como que provocando qualquer passante que estivesse naquele trecho da cidade e contemplasse aquela insignificante porta esquecida, ainda que por apenas poucos segundos, a atravessar o beco para descobrir seu segredo. Um casal cruzou a minha frente caminhando rapidamente em direção a uma confeitaria na esquina, e o barulho de um veículo que cortava a rua me deixou novamente de costas para o beco, fazendo-me partir para minha casa.