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quarta-feira, 1 de julho de 2009

O PRESENTE DE OLIVER KLERICH


SEGUNDA-FEIRA, 28 DE JUNHO DE 2009.
Na véspera de completar oito anos de idade, Oliver Klerich recebeu a visita do seu tio Daniel Frandestik por volta das 21:00hs de uma quarta-feira, quando toda família estava reunida na sala de TV assistindo ao noticiário local. A residência dos Klerich localizava-se num quarteirão de casas tradicionais de um bairro nobre da cidade de Ishim. A casa fora passada de geração a geração e estava ali certamente há mais de cem anos. Durante este tempo fora restaurada por duas reformas; assim, quem passava em frente ao local deparava-se com uma construção de madeira nobre, janelas ornamentadas com belas plantas, e um pequeno corredor de pedras cortando o jardim frontal de gramas baixas bem cuidadas, terminando numa escada de sete degraus que levava à porta de entrada. De noite via-se a iluminação forte através das cortinas, além das luzes especiais do jardim que incidiam sobre o canteiro de flores conferindo um charme especial àquela imagem.
Naquela quarta-feira antes mesmo de Daniel Frandestik apertar a campainha da casa, o cachorro da família despertou do aconchego do tapete e começou a latir, correndo da sala de TV para a porta de entrada pressentindo a aproximação do visitante, mas os Klerich já aguardavam a presença do homem, cuja visita havia sido previamente anunciada ao pai de Oliver no dia anterior através de um telefonema. Impossibilitado de comparecer ao aniversário do sobrinho que ocorreria no dia seguinte, devido a uma viagem inadiável de negócios para a capital, Daniel não teve opção a não ser comparecer um dia antes para abraçar o sobrinho, e presenteá-lo com algo que trazia numa embalagem quadrada, enfeitada num papel colorido brilhante envolto por um laço vermelho. Sabendo antecipadamente da surpresa que aguardava o filho na porta de casa, o pai de Oliver Klerich deixou que ele próprio a abrisse naquela noite.
Ao abrir a porta de casa Oliver deparou-se com um homem de 58 anos, de estatura média, trajando um casaco de inverno azul escuro com listras negras que lhe descia um pouco abaixo da cintura, o pescoço estava protegido por um cachecol, tinha um olhar sincero por trás de um óculos grande de lentes retangulares, e um sorriso discreto esboçado nas maçãs gordas da face, porém um pouco escondido por um bigode grisalho. Oliver nutria uma estima especial pelo tio uma vez que Daniel trabalhara como marinheiro há 28 anos viajando pelo mundo. Tanto tempo a bordo de uma embarcação mercante, traziam histórias fantásticas que o sobrinho parava para ouvir toda vez que recebia a visita do tio em casa. Os braços do garoto envolveram o homem simpático que adentrou rapidamente na casa, e quando se afastou alguns passos permitindo que o tio se abaixasse para ficar na sua altura, segurou o misterioso pacote com as duas mãos que lhe foi entregue, observando-o cuidadosamente com os olhos brilhantes de euforia.
Enquanto Daniel se aproximava do irmão e saudava toda a família, o garoto subiu rapidamente a escada com o presente nos braços, em direção ao seu quarto localizado no primeiro andar da casa seguido pelo cachorro. Fechou a porta e sentou-se na cama escutando o ruido distante de seu pai e seu tio dialogando e rindo. Na privacidade do quarto seus dedos começaram a desatar o nó que envolvia a caixa que estava em seu colo, sob os olhares atentos do cão deitado embaixo de uma cadeira. Finalmente livrou-se do laço vermelho e com gestos rápidos rasgou o papel brilhante que ocultava o segredo, revelando-lhe uma caixa de madeira com uma tampa. Colocou a caixa sobre a cama e com cuidado removeu a tampa. Quando seus dedos retiraram o papel de seda que encobria o presente, Oliver reconheceu a figura de um pequeno boneco articulado de madeira preso no interior da caixa através de alguns grampos de metal. Aproximou seus olhos da caixa para vê-lo com mais detalhes, e pode constatar que o boneco era todo feito com pedaços de madeira polida, harmoniosamente encaixadas nas articulações através de alguns pequeninos parafusos, numa imagem que lhe conferia um certo aspecto humano. Ficou a observar por alguns segundos aquela simplicidade encantadora do brinquedo, notando que um pequeno toco de madeira representava a cabeça do boneco; não haviam olhos, boca, e nenhum detalhe na face. Oliver retirou o presente da caixa, trazendo para perto de si o boneco deitado inerte na palma da mão, com os frágeis braços de madeira escorrendo por entre seus dedos e as pernas caídas para o lado, mas o silêncio daquele momento foi rompido quando a mãe do garoto o chamou para baixo. Segurando o boneco nas mãos desceu a escada encontrando o tio já a porta. Depois da despedida carinhosa, o garoto jamais se esqueceria das últimas palavras que Daniel Frandestik lhe dirigiu discretamente na porta de casa naquela noite:
- Oliver, este brinquedo não é um simples boneco de madeira, trate-o como uma pessoa e ele vai ajudá-lo, mas guarde segredo destas palavras. - e dizendo isto Daniel desapareceu na escuridão da noite com passos apressados em direção ao carro.
A partir daquele dia Oliver levaria consigo o presente ganho do tio durante quase todo o tempo, e foi assim no dia seguinte mesmo em meio a outros presentes recebidos por ocasião de sua festa de aniversário. Na estante do quarto, livros novos dividiam espaço com miniaturas de carros e aviões recém-adquiridos, alguns jogos de tabuleiros empilhados no canto, uma caixa contendo inúmeras peças de um quebra-cabeças que ainda não o atraía, e uma bola de futebol no chão do quarto, coberto de pedaços rasgados de papel de presente; mas no criado situado ao lado da cama o boneco ocupava lugar de destaque encostado no abajur, como se observasse o garoto durante toda a noite. Pela manhã quando descia para tomar o café levava o boneco e o colocava sentado na mesa ao lado de seu prato, repetindo o gesto na hora do almoço, e pela noite sob os olhares curiosos da mãe que permitia. Ao sair para a escola o escondia cuidadosamente dentro da mochila, e assim passava toda a tarde com o brinquedo sob seus cuidados de modo que nenhum outro garoto da turma descobrisse.
Passaram-se duas semanas até que certa noite Oliver despertou durante a madrugada, após ouvir um barulho que parecia vir de sua estante de brinquedos. Deitado na cama o garoto observava o ambiente de seu quarto banhado pela frágil luz daquela noite, que atravessava a janela e invadia o recinto com uma penumbra que lhe permitia ver vagamente os objetos espalhados naquele espaço. Sentado no tapete da porta de entrada, o cão permanecia imóvel olhando fixamente para a estante de brinquedos como se denunciasse algo para o dono. Quando Oliver olhou para o lado notou que o boneco de madeira havia desaparecido de seu lugar costumeiro ao lado do abajur. Assustado o garoto saltou da cama olhando para o cão com um ar recriminador imaginado que o animal havia pego seu presente, quando foi surpreendido mais uma vez por outro ruído que parecia vir de trás das caixas empilhadas. Um temor apoderou-se de Oliver fazendo com que o cão latisse voltando toda a atenção para a estante. Parado ao lado da cama o garoto observava a pilha de caixas com receio de aproximar-se, e por alguns instantes teve a impressão de que as caixas estavam sendo arrastadas, pareciam deslizar vagarosamente sobre a superfície.
Por alguns segundos o garoto permaneceu imóvel com olhar fixo nas caixas de jogos amontoadas no canto da estante, não havia mais dúvida mesmo diante da luz fraca presente no quarto de que algo movia as caixas para a frente. Oliver estendeu o braço esquerdo e sua mão apanhou o taco de beisebol encostado na parede; tomou coragem e temendo tratar-se de um rato deu dois passos em direção as caixas, enquanto juntava suas mãos levantando os braços pronto para golpear o roedor com o taco, assim que o intruso surgisse diante de seus olhos. Mas quando seus braços estavam prestes a desferir o golpe mortal foi surpreendido pela imagem mais inacreditável de sua vida; assustado pode reconhecer aquelas pequeninas mãos de madeira que empurravam as caixas para frente. O garoto não conseguia acreditar no que via, a menos de um metro de si o boneco presenteado pelo tio saiu de trás das caixas, caminhando naturalmente como se fosse uma pessoa, até ficar parado em pé na estante diante de Oliver.
O cão permanecia atento ao misterioso boneco de madeira, mas de repente latiu, fazendo o brinquedo correr novamente para trás das caixas e o garoto abaixar o taco de beisebol. Oliver levou o cachorro para fora do quarto, trancou a porta e voltou a ficar parado diante da estante gesticulando vagarosamente para o boneco voltar.
- Venha, não tenha medo, eu já tirei Scott daqui! Venha! Venha!
E assim novamente aquele pequenino corpo de madeira saiu de trás da escuridão das caixas, e com breves passos aproximou-se de Oliver, postando-se em pé na superfície da estante na altura dos olhos do garoto surpreso diante do que presenciava.
Os dias se passaram e não demorou muito para que o garoto descobrisse que o boneco ganhava vida somente de noite. Certo dia encarando o brinquedo que caminhava pela mesa de estudos e tentava abrir um pequeno baú, tomou a ousadia de perguntar pelo nome do desconhecido amigo, e qual não foi a surpresa do garoto ao ver que o boneco abaixou-se na mesa, apanhou um pedaço de lápis com as duas mãos, e meio desajeitado riscou na superfíce clara o nome STILL. Em certas ocasiões, mesmo não tendo olhos o boneco parecia encarar o garoto, e quando a resposta limitava-se a um sim ou não, gesticulava a cabeça de maneira afirmativa ou negativa o que bastava para que se fizesse entender.
Dois meses depois Daniel reapareceu num domingo e levou Oliver para um passeio no parque central da cidade. Enquanto caminhavam pela rua deserta típica de um final de semana, o tio observou o garoto que segurava o boneco numa das mãos e lhe perguntou:
- Sua mãe me disse que você não se separa deste boneco Oliver! como vai o Still? - esboçou um sorriso na face esperando a resposta do sobrinho.
- Ele vai bem, por que não me disse que ele era vivo? - o garoto olhou para o tio enquanto continuavam a caminhar em direção ao parque.
- Porque não seria uma surpresa, e porque eu não teria marcado aquele dia para o resto da tua vida como eu consegui com este presente Oliver; acho que jamais vai esquecer o dia em que viu Still pela primeira vez na tua estante.
E assim a tarde de domingo passou com Daniel respondendo ao garoto sobre o misterioso presente, numa conversa repleta de perguntas de um menino inocente e curioso. Sentado no banco da praça, de frente para um lago cujas águas paradas formavam um espelho amarelo refletindo a luz do sol, o velho marinheiro encarou o sobrinho mais uma vez e num tom sério lhe disse:
- Tem uma coisa sobre o Still que eu ainda não contei.
O garoto segurava o boneco imóvel nas duas mãos, e voltou-se atento para as palavras do tio:
- Você deve cuidar do Still...tem que cuidar dele para sempre Oliver...
- Esta bem tio.
- Preste atenção filho... tem que cuidar e brincar com Still até quando estiver adulto... nunca pare entendeu?
- Entendi, por que tio? por que não posso parar?
- Porque no dia em que a tua infância morrer,... o velho deteve o folego por alguns segundos antes de prosseguir, parecendo receoso diante da revelação prestes a fazer ao menino - Still também morrerá, o boneco também morrerá Oliver, você entendeu filho?
Daniel Frandestik observou o sobrinho apenas confirmar afirmativamente com a cabeça e sem palavras naquela tarde de domingo. Com o semblante preocupado e os olhos marejados o garoto observou o tio assustado diante das duras palavras proferidas, mas rapidamene ambos voltaram a conversar com o velho marinheiro tentando tranquilizá-lo, e explicando novamente que Oliver deveria tomar o cuidado de jamais abandonar o presente, pois caso contrário Still se tornaria um simples boneco de madeira sem vida.

QUARTA - FEIRA, 1 DE JULHO DE 2009.
Enquanto redijo estas linhas em meu diário, e transmito ao leitor esta inacreditável história de minha infância, penso no quão absurdo foi minha atitude de não tomar o devido cuidado, depois de ter sido alertado pelo meu tio na tarde daquele domingo. Não há um dia em que não me culpe pela morte de meu amigo, levando comigo as lembranças daqueles mágicos e inesquecíveis momentos, presentes durante todos estes anos em que mantivemos este segredo vivo juntamente com meu tio Daniel, que jamais revelou qualquer palavra a outra pessoa. Eu já não meu lembro com certeza, hoje estou velho, tenho família, e sou um empresário bem sucedido no setor de construção; mas aproximadamente quatro anos depois de nossa conversa no parque, certa noite encontrei Still imóvel encostado no abajur, sentado e caído de lado no criado de cabeceira da cama. A princípio não me preocupei esperando que num passe de mágica o boneco retornasse à vida como fazia todas as noites, mas o tempo foi passando, passando, e Still permaneceu imóvel encostado no abajur naquele aspecto triste e abandonado de um brinquedo esquecido e superado pelo tempo. Passei aquela noite em claro sentado na cama observando o boneco e esperando em vão por algum sinal de vida durante toda a madrugada, até que me lembrei das palavras de meu tio Daniel, fazendo com que minha própria conduta daquela semana caísse sobre mim como a mais temível condenação que já recebi. O motivo da morte de Still não é difícil de ser deduzido pelo sábio leitor de minhas linhas. Fazia uma semana que eu não levantava durante as madrugadas para brincar com Still, e assim não percebi que o tempo me distanciou do meu amigo, e que as novidades adquiridas com o passar dos anos, bem como o fato de que passava cada vez mais tempo fora de casa, o tornaram um presente obsoleto. Curiosamente tenho a vaga lembrança de naquela semana ter sido incomodado por alguma força que tentava me acordar todas as noites, algo que parecia querer puxar o cobertor sobre meu corpo no intuito de me despertar. Hoje não tenho mais dúvidas de que esta força eram as pequeninas mãos de madeira de Stilll, tentando sem sucesso me acordar de algum jeito enquanto teve vida.
Agora estou sentado na mesa do escritório de minha casa, no silêncio da noite, e neste momento sempre sinto falta daquelas brincadeiras de infância, e de Scott que agora trocou de dono e passou a morar na casa de minha filha. Ainda conservo o abajur que está sobre a mesa próximo a este diário, e bem a minha frente coberto pela luz amarela está o incrível presente que ganhei de Daniel Frandestik há muitos anos. Esta imagem é uma sentença que me acompanhará em silêncio pelo resto de meus dias. Sempre que entro neste escritório e observo minha mesa, todos os demais objetos desaparecem com exceção de apenas um; meus olhos se detém num pequeno boneco de madeira que permanece sentado ao lado do abajur, olhando para baixo, parece solitário numa atitude reflexiva. As vezes me pego chamando por ele, da mesma forma que no primeiro dia em que o vi escondido atrás das caixas de jogos acuado pelos latidos de Scott. No fundo ainda nutro um resquício de esperança de que Still algum dia reviva na mesa de meu escritório e saia andando por ele.

domingo, 15 de junho de 2008

O BECO DE STA. ALBA

De pé com os braços cruzados e trajando o mesmo uniforme escolar, Elias Clader, Felipe Tornadori, e Ricardo Manintim, o garoto mais temido do ginásio também conhecido como Ricardo "boxeador", apelido que lhe conferia uma certa imunidade em todo o Colégio, observavam-me na entrada do beco de Sta. Alba. Em seu pequeno mundo circunscrito ao espaço do maior colégio da cidade, aonde subjugava todos os demais garotos pela força e tornava-se certamente na amizade mais desejada, Ricardo tinha seus domínios ameaçados apenas pela figura dos professores e do Diretor Ernesto Laurentim Lofer apelidado de "general".
Lançando um olhar para trás quando já caminhava pelo sombrio beco iluminado apenas pelo brilho das estrelas, pude vislumbrar o vulto cada vez mais distante dos três garotos imóveis e atentos, que pareciam ansiar por um desfecho inesperado para deleitarem-se as custas de meu fracasso. Lembro-me que tinha 15 anos quando decidi entrar no beco de Sta. Alba para cumprir o desafio que me fora imposto pelo grupo de Ricardo "boxeador", ou melhor pelo próprio Ricardo, afinal este era o preço determinado para que qualquer garoto da cidade quisesse conhecer Ingrid, sua irmã, e a garota mais bonita do Colégio. Como ninguém questionava suas decisões, Ricardo adotara uma tática bem diferente do simples uso da força física para intimidar os pretendentes, colocando-os frente a frente com o lugar mais assustador da cidade e deliciando-se com seus temores: o beco de Sta Alba.
As histórias contadas pelas pessoas sobre a misteriosa moradora nunca vista por ninguém ao longo de anos, que habitava um pequeno quarto no final do beco deram uma notoriedade sombria ao pequeno e estreito corredor de aproximadamente 30 metros que dividia dois prédios antigos não muito altos. Nas paredes sem janelas, manchadas e desbotadas pelo tempo, os fios de varal cruzavam-se desordenadamente inúmeras vezes, unindo ambos os lados e revelando apenas algumas peças de roupas, toalhas, e lençóis pertencentes a mulher. Como uma rua indesejada por todos os moradores, cujo final revelava uma porta de madeira com uma pequena placa com a enigmática inicial "L.L.D.", até mesmo durante o dia a passagem permanecia vazia, servindo apenas de abrigo para três gatos que escondiam-se nos jornais e caixotes abandonados espalhados ao longo do corredor.
Naquela noite fria enquanto me aproximava da porta, desviando-me dos tecidos que balançavam freneticamente no varal agitados pelo forte vento, observando as sombras delineadas que como espectros adquiriam vida em súbitos movimentos nas paredes, para desaparecerem logo em seguida e reaparecerem sob outros desenhos disformes, notei que era acompanhado por um dos gatos que habitavam o beco. A poucos passos da porta e tão perto do objetivo imposto por Ricardo de desvendar o significado das iniciais "L.L.D." inscritas na placa, virei-me para trás e constatei que os três garotos, agora apenas uma pequena silhueta distante que fundia-se com a escuridão, ainda continuavam a observar-me sem expressar qualquer gesto, inertes e ansiosos pelo que eu faria. Quanto a isso nunca tive dúvidas; desde o momento em que aceitara o desafio eu já sabia que não haveriam planos ou táticas para desvendar o mistério, a não ser utilizando-me do único método viável de bater na porta da moradora e perguntar-lhe pessoalmente sobre as letras. Ali postado na porta, depois de percorrer todo o beco de Sta. Alba já não havia como desfazer o meu ato, os passos denunciavam alguém que aproximava-se rapidamente da porta pelo lado de dentro respondendo as minhas batidas, parecia correr. Finalmente a porta se abriu vagarosamente.
O rangido preguiçoso das dobradiças revelou-me a mão delicada de uma mulher, que puxou a porta desvendando aos meus olhos um corredor com lindos tapetes coloridos decorados; bem ao fundo pude identificar um conjunto de mesas e cadeiras bem antigas, ricas em detalhes entalhados na madeira ocre que brilhava com a iluminação suave de um grande lustre de cristal, cuja porta de entrada do recinto me permitia ver somente a ponta, dando um aspecto de beleza incomum no que me pareceu ser uma sala de visitas.
- Não gostaria de entrar?
Meus olhos acompanharam aquela voz jovem e tranquila de uma mulher de aparentemente 30 anos que se apresentou a minha frente, muito bem vestida, estendeu sua mão em minha direção dizendo:
- Muito prazer,...eu sou Liz.
Por alguns segundos permaneci mudo diante da imagem daquela linda mulher educada, até o gato que me acompanhava ficou paralisado quando o brilho do interior da casa escapou para o beco iluminando parte da parede suja deixando meus desafiadores distantes completamente atônitos bem na entrada da viela.
- Sim, obrigado,... meu nome é Hugo Hertiz - estendi a mão e cumprimentei aquela mulher de gestos graciosos que me absorvia toda a atenção, longos cabelos castanhos cacheados escorriam-lhe pela face destacando ainda mais seus olhos verdes, um sorriso discreto realçava as maçãs avermelhadas de seu rosto pela brisa gelada da noite que invadia aquela casa.
Arrumei o pequeno gorro preto na cabeça, virei-me para trás, e agora sentindo-me vitorioso diante do desafio que me fora imposto, despedi-me dos garotos parados na entrada do beco com um ligeiro aceno de mão, aproveitando-me do meu momento de superioridade e entrando na misteriosa casa. A porta fechou discretamente e a escuridão dominou novamente todo o beco.
Em poucos passos atravessei o corredor acompanhado por Liz, e pude observar que as paredes estavam decoradas com quadros retratando paisagens e pessoas, alguns pareciam tratar-se de retratos de família. Finalmente vislumbrei por completo a sala que da porta revelava-me apenas parte da mesa e do lustre de cristal. Olhando para cima parado na porta de entrada da sala, parecia ver uma fusão de tons amarelados refletidos nos inúmeros cristais que compunham o grande lustre que dominava o centro do teto daquele ambiente; a minha frente a mesa retangular e as cadeiras delicadamente entalhadas num trabalho manual admirável conferiam um tom nostálgico mas elegante aquela casa; ao fundo da mesa dois sofás e uma pequena mesinha de vidro preenchiam harmonicamente o restante do espaço da sala. Minha anfitriã apontou-me um dos sofás convidando-me a me sentar.
- Que prazer recebê-lo Hugo,... saiba que espero por uma visita há vinte e oito anos,... e finalmente recebo-o em minha casa.
Sua primeira observação me deixou confuso, então sentindo-me mais a vontade perguntei:
- Vinte e oito anos?... o que quer dizer Liz?- Já estava cansada de chegar a porta e abri-la para deparar-me sempre com o beco vazio,... ou quando muito, com pessoas correndo ao longe desesperadas,... mal ouvindo meus gritos para não correrem.
- Como?... nunca ninguém te visitou Liz?
- Não,... ou melhor,... tentaram em todos estes anos,... mas fugiram antes que eu chegasse a porta para avisá-los e me desculpasse em nome do mordomo da casa.
- Avisá-los do que? - comecei a sentir um certo receio de ter entrado de imediato na casa de Liz, a conversa entre nós estava começando a ficar assustadora, mas não o bastante para deter a minha curiosidade.
- Avisá-los para não temerem o mordomo, apesar da sua aparência eu lhe garanto que Livingtom é o melhor trabalhador que tenho aqui, talvez não seja muito bom no trato com as pessoas, embora tenha me jurado que seu tratamento extremamente cordial nunca foi o bastante para detê-las à porta por poucos segundos que fossem. Sei que parece estranho mas durante todos estes anos Livingtom sempre se antecipou a mim,... acredite Hugo! ele é muito rápido, e assim ele sempre abriu a porta mesmo quando eu tentava impedi-lo, pois quando eu olhava para a porta la estava ele educadamente postado para recepcionar meus visitantes.
- Até hoje?... o que ocorreu então Liz?...o que fez com que você atendesse a porta?
- Eu não sei meu querido,... eu apenas ouvi suas batidas na porta já conformada de que Livingtom estaria lá para abri-la, então eu nem me apressei,... mas imagine minha surpresa quando cheguei ao corredor e vi que ele não estava a porta!... aí então corri enquanto você batia e finalmente consegui abri-la.
- E onde ele está agora?
- Está trancado no seu quarto - o semblante de Liz foi tomado de uma preocupação que em poucos minutos deu lugar a um choro, lágrimas começavam a escorrer-lhe pela face; estendeu a mão e apanhou o lenço de seda que eu lhe ofereci - temo que algo muito ruim tenha acontecido a Livingtom,... imagine Hugo!... pela primeira vez em vinte e oito anos ele não atendeu a porta,... algo do qual ele não abriria a mão por nada neste mundo!... quantas vezes eu briguei com ele, quantas vezes eu lhe proibi de abrir a porta, até coisas piores me passaram pela mente para impedi-lo!
Comecei a pensar na figura deste misterioso mordomo formando a imagem em meu inconsciente de uma pessoa vitimada talvez por alguma deformidade física, algo que o tornara assustador para os visitantes que haviam batido na porta, o que só aumentava o mistério e meu medo acerca do desconhecido Livingtom.
- Mas porque corriam dele Liz?... pelo que você me contou até agora imagino que este pobre homem deve ser muito assustador...
- Desculpe Hugo, mas eu não vou responder mais nada,... eu ainda não o vi hoje,... então porque não me acompanha até o quarto dele e descobrimos juntos o que ocorreu?... acho que não tenho coragem de ir lá sozinha,... mas não quero obrigá-lo a prosseguir e respeitarei sua decisão se quiser partir... - novamente irrompeu em choros preparando-se para levantar da cadeira.
Por alguns segundos eu fiquei completamente perdido na minha decisão, lembrei-me de minha mãe e suas broncas me alertando acerca do envolvimento com estranhos, imaginei ela naquele exato momento com o olhar severo me recriminando por ter apenas entrado na casa de Liz, e certamente me aplicando uma surra quando chegasse em casa devido ao meu atrevimento. Mas ela não estava lá naquele momento, e minha comoção pela mulher que transmitia uma certa franqueza em sua voz, me convenceram a subir para o quarto do mordomo.
Acompanhei Liz por uma escada que corria junto a parede, e após alguns degraus, deparei-me com outro corredor escuro no piso superior da casa. Apenas duas portas opostas em cada lado do corredor completavam o espaço cujas paredes agora já não apresentavam nenhuma decoração.
- Venha comigo Hugo - dizendo isto a misteriosa mulher dirigiu-se para a minha esquerda até o final do corredor, parando e encostando-se rente a porta colando seu ouvido na madeira para tentar escutar algum sinal do mordomo.
Parado ao seu lado eu olhava acima contemplando seu semblante de preocupação, diante da omissão de qualquer ruído proveniente do lado de dentro da porta. Com leves batidas na porta Liz rompeu o silêncio do ambiente:
- Livingtom!!... você está me ouvindo? - sua mão batia de novo na porta.
- Livingotm!...por favor!... - sem êxito a mulher forçava a maçaneta da porta que estava trancada do lado de dentro.
- É você Srta. Liz?... uma voz fraca e melancólica, mas que me era familiar escapou de dentro do quarto.Pela primeira vez pude ouvir a voz de Livingtom, o tom rouco e cansado não me deixavam dúvidas de que se tratava de alguém beirando os seus 80 anos.
- Livingtom, o que aconteceu?
- Há uma chave debaixo do tapete Srta. Liz
Abaixei-me imediatamente atendendo ao pedido de Liz, e após levantar o tapete marrom colocado bem a frente da porta do quarto, deparei-me com uma chave prateada presa a um cordão. Entreguei para minha acompanhante que destrancou a porta rapidamente e abrindo-a revelou-me uma visão que eu jamais esqueceria pelo resto de minha vida.
Deitado na cama com um aspecto cansado e doente, lá estava o "general". Com seu olhar profundo e seco observava-me em silêncio; seu semblante frio e circunspecto somado a pele pálida destacavam-lhe as rugas que cortavam seu rosto e passavam-me uma aparência desagradável. Reconheci aquele homem que permaneceu em silêncio me observando enquanto Liz arrumava o cobertor sobre seu corpo; tão autoritário aquele homem que conhecia, tão inflexível em seu mundo exterior mas ali naquela cama o contemplava tão frágil, tão entregue ao cuidado alheio, algo que ao menos para mim não combinava com aquela sua imagem dominadora que já conhecia, foi quando me veio a mente a seguinte indagação trazendo-me novamente a realidade:
- Liz, você me disse que ele se chama Livingtom?
- Sim Hugo...porque? - virou-se para mim ficando de costas para a cama.
- Eu conheço este homem Liz, mas ele chama-se Ernesto Laurentim Lofer e é o diretor do maior Colégio da cidade.
- Certamente Alfredo, mas permita-me explicar um detalhe - dizendo isto voltou-se novamente para o homem deitado que tossia, serviu-lhe uma xícara de chá quente que repousava sobre o criado, com cuidado arrumou o seu leito falando-lhe no ouvido algumas palavras que não pude distinguir, e convidou-me a descer novamente até a sala.
De volta a sala e sentado no mesmo sofá, percebi que Liz demorava para me explicar aquela situação confusa, finalmente tomou coragem, inclinando-se na minha direção, e bem próxima olhando-me fixamente nos olhos disse:
- Hugo, eu vou lhe contar um segredo, e o que vou lhe contar vai parecer estranho, vai ser difícil de acreditar, mas eu quero que acredite porque eu lhe asseguro que tudo o que disser é verdade, não tenha medo.
Naquele instante minha respiração diminuiu, e todo o meu ser foi envolvido pelo efeito daquelas palavras que aguçaram minha curiosidade.
- Hugo, esta não é uma casa comum, é uma casa diferente de todas as demais.
- Ainda não entendi Liz, eu percebi que ela é um pouco diferente de todas que eu conheço com todos estes objetos de decoração, coisas antigas...
- Pode até ser Hugo, mas não me refiro a isto, estou dizendo que a casa detém um poder mágico e transformador sobre as pessoas que entram aqui.Minhas palavras cessaram, e observei Liz paralisado pela história enquanto prosseguia:
- Hugo, qualquer pessoa que entre nesta casa, torna-se aqui dentro o oposto é lá fora, ocorrendo uma espécie de recriação da pessoa com uma inversão dos traços de sua personalidade.
- Não entendi nada...
- Tudo bem,...eu vou tentar explicar,...vamos tomar de exemplo o Livingtom.
- Você está dizendo o Ernesto "general" Liz?
- Sim,.. quando as pessoas entram aqui elas adquirem outro nome.
- E como você sabe os nomes?- Eu apenas pergunto e elas me dizem, foi assim com Livingtom,...quer dizer... com o "general", me parece que é assim que ele é conhecido lá fora.
- Isso mesmo Liz, todos o conhecem assim.
- Para você entender a magia da casa, me responde a seguinte pergunta: Como o "general" é visto lá fora Hugo? Como é o comportamento deste homem? Como é o jeito dele?
- Quase todo mundo acha ele um homem dominador, autoritário, o tipo que assusta e que quer se impor usando inclusive a força se for preciso.
- Viu,...eu já imaginava isto,... agora me responde outra pergunta Alfredo: sabe como é o jeito dele aqui na casa? Ao menos percebeu qual a função dele aqui?
- Ele é um mordomo Liz, até agora acho isto muito estranho, não consigo imaginar este homem assim.
- É porque aqui ele não domina e nem age autoritariamente Hugo, aqui ele serve, é um mordomo que atende a porta, entendeu agora?
- Estou começando a entender Liz, mas e quanto a mim? o que você vê de diferente agora? você vê alguma característica que eu não apresentava lá fora?
- Não Hugo, eu não vejo nada, ainda não lhe contei, as crianças como você são imunes a magia da casa.
- Imunes?
- Sim, quer dizer que não são atingidas pelo efeito, e isto porque as crianças são naturalmente expontâneas e não dissimulam como os adultos.
- Dissimulam?
- Sim Hugo, dissimulam quer dizer escondem algo, ocultam.
Continuamos a dialogar naquela sala, enquanto permanecia atento as palavras daquela mulher ilustrando-me alguns casos que resolvera contar-me, e assim fiquei sabendo de pessoas que haviam entrado naquele recinto, cidadãos anônimos ou personagens notórios daquela cidade que tinham seu comportamente e personalidade radicalmente transformados, invertidos; os soberbos tornavam-se humildes, os pacatos tornavam-se agressivos, os reflexivos transformavam-se em pessoas impulsivas e passionais, enfim, qualquer traço da personalidade de qualquer indivíduo que adentrasse aquele recinto, exceto uma criança, era transformado no seu exato oposto pela magia da casa, como se ali naquele lugar qualquer indivíduo estivesse parado diante de um "espelho as avessas" que lhe revelaria sua outra face.
A intrigante conversa com Liz me deixou totalmente alheio ao tempo, e somente me dei conta do adiantado da hora quando o relógio dourado de parede que destacava-se naquela sala, despertou-me com longas badaladas indicando que já eram 22:00hs. Não tive tempo de prosseguir com a conversa embora desejasse fazê-lo intensamente, e enquanto me dirigia para a porta de entrada atravessando o longo corredor ricamente decorado, não pude deixar de fazer as três últimas perguntas daquela noite:
- Liz, por que você nunca saiu da casa?
Por alguns breves instante aquela linda mulher me olhou, esboçou um sorriso discreto e respondeu-me com muita tranquilidade:
- Eu acho que pelo fato de que certamente eu não vou gostar de minha personalidade no seu mundo Hugo,...fico pensando, se aqui eu sou desta forma que você me vê e da qual eu gosto,... como seria esta minha personalidade lá fora e revelada de maneira oposta?... talvez não seja agradável,... talvez carregue algum traço reprovável que aqui na casã não se manifeste, mas se atravessasse esta porta então ele seria inevitavelment exposto.
As mãos de Liz tocaram na maçaneta da porta e quando preparava-se para abri-la questionei-a novamente:
- Porque as pessoas fogem daqui mesmo não conhecendo a casa?...Por que as pessoas fogem só pelo fato de verem o mordomo abrir a porta?
- Porque o mordomo a que você se refere é uma pessoa conhecida desta cidade, sobretudo no que se refere a sua personalidade, e assim, qualquer um que se depare com alguém cuja imagem formada no imaginário de sua sociedade, é exatamente o oposto do que ele vê aqui quando a porta se abre, sofre inevitavelmente um estranhamento Hugo, toma um susto, uma reação de incompreensão que causa temor e os afasta da casa; pelo menos é o que tem ocorrido há vinte e oito anos até você aparecer hoje por aqui.
Fiquei em silêncio; passei pela porta pensando nas palavras daquela mulher, enquanto novamente sentia a brisa gelada da noite que atravessava o beco e invadia o recinto. Numa última olhada para Liz agradeci a cordialidade de me receber, e a coragem de me confiar tão fantástico segredo, e lhe fiz a última pergunta daquele nosso encontro apontando com o braço esquerdo para a placa localizada bem acima da porta:
- O que significam as iniciais "L.L.D."?
- São iniciais de três palavras Hugo: "Liberta-te, livra-te e descobre-te" - e tendo dito isto Liz me olhou por mais alguns instantes, enquanto era envolvido pela escuridão cada vez mais intensa do beco que retornava a medida que a porta fechava-se, transformando aquele clarão que escapava do interior da casa num facho de luz cada vez mais estreito que cortava a parede suja do lugar, até esvair-se engolido pela noite.
Comecei a caminhar para a entrada do beco procurando pelo grupo de Ricardo "boxeador", já imaginando a recompensa que havia conquistado com tamanha ousadia de minha parte. Meus passos apressaram-se enquanto me aproximava da rua procurando pelo vulto dos garotos em meio aquele lugar abandonado; então já distante, parado bem na entrada da viela no exato lugar aonde meus desafiadores haviam me observado há poucos minutos, percebi que haviam partido. Dei uma última olhada para trás e pude ver a porta da casa de Liz, agora uma pequena porta, distante, quase que imperceptível, absorvida pelo mistério e pelas sombras daquele beco, como que provocando qualquer passante que estivesse naquele trecho da cidade e contemplasse aquela insignificante porta esquecida, ainda que por apenas poucos segundos, a atravessar o beco para descobrir seu segredo. Um casal cruzou a minha frente caminhando rapidamente em direção a uma confeitaria na esquina, e o barulho de um veículo que cortava a rua me deixou novamente de costas para o beco, fazendo-me partir para minha casa.

sábado, 31 de maio de 2008

RAFAEL; "O TIRANO"; E O TREM

Pela janela da velha casa de madeira, com a pintura desbotada pelo tempo eu podia contemplar meu único vizinho, meu único amigo naquele mundo distante de todas as demais moradias da região. Ali naquela planície rasgada apenas pela estrada de ferro, estavam duas casas, duas atrevidas construções desafiando aquela geografia imutável que resistia ao tempo a ao progresso, duas famílias e dois amigos separados da civilização. Lamentava-me pelo infortúnio do destino que havia trazido para o meu amigo desde o seu primeiro dia naquela casa, uma dificuldade bem maior do que todos os meus problemas. Com a morte de seus pais e sem ter outros familiares a quem recorrer, o garoto fora admitido a força naquela família que o desprezara desde a primeira noite, quando foi obrigado a dormir no chão do depósito da casa excluído de qualquer tipo de afetividade.
O cuidado que deveria partir de seus tios sempre partia de meus pais, que nem sempre convenciam Igor, "o tirano", apelido que convenientemente lhe fora dado por minha mãe num momento de revolta, a deixar o garoto sair de casa.
Este covarde!... aposto que nem mesmo comida lhe dão!... - as palavras preocupadas de minha mãe ecoavam em minha mente, acompanhando-me durante todo o dia.
Os pequenos dedos sujos de Rafael pareciam querer arrancar as grades do seu quarto, que o mantinham na residência que sempre lhe fora muito mais uma prisão do que sua própria casa. Um aceno de mão de meu amigo num gesto secreto previamente combinado para comunicar-se, revelava-nos os dias em que Igor estava de bom humor, e que supostamente meu pai teria mais chances de êxito intercedendo junto ao homem para deixar o garoto sair. De minha casa podia escutar o recado libertador de Igor a Rafael confirmando o sucesso de meu pai na sua tentativa:
- Vai garoto!... sai logo!... mas se não demora e não me faça buscá-lo, se eu escutar alguma reclamação sua!... você já sabe!...
Certo dia enquanto comíamos alguns pães na cozinha de casa, fui surpreendido por uma declaração aparentemente inocente de Rafael:
- Alfredo,... um dia eu fujo daqui!...
Sentado de frente para meu amigo não tive tempo para responder a afirmação que me acabara de fazer, pois logo em seguida minha mãe adentrou a cozinha arrumando algumas gavetas e guardando os últimos copos na prateleira; deu um última olhada para nós, e antes de sair de casa para um evento de caridade relembrou-nos o seu velho conselho:
- Alfredo!... nada de brincar perto da estrada de ferro entendeu? fiquem longe do trem senão ele leva vocês!... entendeu Alfredo?
Tornávamos-nos sérios e adultos naquele momento transmitindo um certo temor em nossos semblantes, o que conferia a minha mãe a segurança de que suas declarações resultariam em nossa total e submissa obediência, algo que na verdade revelou-se sempre como a mais perfeita dissimulação de nossa parte para ocultar nosso verdadeiro propósito: assistir a passagem da Maria Fumaça.
O primeiro apito ainda fraco nos despertava para o esperado momento, corríamos e postavamos-nos cada um de um lado da estrada de ferro, observando ao longe o rochedo que escondia a imponente locomotiva cuja coluna de fumaça branca já podia ser vista cortando o céu. Depois do rochedo os trilhos revelavam aquela planície a visão de uma gigantesca estrutura metálica negra; a proximidade do ruídos das engrenagens e do apito ensurdecedor intimidava-nos, mas permanecíamos em nossas desafiadoras posições de espectadores. Sentíamos-nos minúsculos, pequenos, insignificantes, quando o trem passava ao nosso lado, e numa última olhada para trás, víamos ao longe o aceno do maquinista como se fosse a primeira vez em que atravessava aquelas terras.
Decerto aquela seria a lembrança mais forte de minha vida, não fosse pelo dia em que recebemos a visita de Igor e sua esposa estampando uma expressão assustadora em suas faces. Perguntado acerca do ocorrido, "o tirano" apenas estendeu a sua mão entregando a meu pai um bilhete, que depois de lido veio parar em minhas próprias mãos. Desdobrei o pedaço de papel e encontrei a seguinte mensagem numa caligrafia que me era familiar: "Sr. Igor, decidi sair definitivamente da vida de sua família, então vou correr e pular no trem. Adeus! Rafael."
Naquela manhã, diante do teor do bilhete, a trágica morte de Rafael certamente foi o primeiro pensamento que ocupou a mente dos adultos, mas não a minha; então fechei os olhos por alguns segundos e lembrei o que Rafael havia me dito na cozinha certa vez. Imaginei meu amigo correndo, saltando para dentro do vagão, e parado na porta aberta com um largo sorriso de satisfação observando as duas casas cada vez mais distantes, cada vez menores, até se tornarem pequenos pontos insignificantes na imensidão da planície, desaparecendo por completo no horizonte.